viver é tão fora do comum que eu só vivo porque nasci. Eu sei que qualquer pessoa diria o mesmo, mas o fato é que sou eu quem está dizendo.
LISPECTOR, Clarice. Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres.
Ele se encantou por várias flores, mas, talvez por algum feitiço jogado por algum invejoso ou mal afeto, sempre que ia cheirar os perfumes destas, elas em pó se transformavam. Tinha um dom, ou um anti-dom: conseguia destruir todas as flores em que tocava, todas que conseguiu um dia possuir. Quando pensou que com a rosa seria diferente, lá estava sua mão queimando a pobre florzinha. Racionalizou para si mesmo que com a dália não foi culpa sua. “Foi culpa dela”, dizia, talvez para tentar fazer com que ele próprio acreditasse nessa inverdade. Encontrou a magnólia, quando pensou que fosse o fim de tudo, e jurou que faria de outra forma, que dessa vez daria certo. Sua grosseria, seu modo bronco, rústico e insensível, entretanto, logo decepou a flor. Foi então que percebeu que amava demais todas as flores e que poderia viver apenas admirando-as, subentendido na distância. Assim as manteria vivas. Conseguiria manter-se vivo. Decidiu: ele decidiu, desde então se afastaria de todas as flores com as quais pudesse ter contato. Esconderia qualquer charme ou qualidade que por ventura pudessem encontrar encobertos em sua carcaça grossa e mostraria a todas apenas o seu lado desprezível. Nunca mais tocaria seu nariz nas pétalas, mas sempre sentiria o perfume das flores levado pela força do vento a vivificar seu coração.
Anna foi pro mar. Mas, antes estava prestes a ir pro ar. Estava a um passo de entrar no avião, o marido já estava lá e percebeu quando a garota parou, fixa no pensamento, e assim se manteve por poucos minutos (que guardaram consigo a eternidade, um mundo). Parou e pensou. Quando uma lágrima caiu, virou e já não estava mais lá. O marido, absorto, foi pego pela surpresa, mas, ao mesmo tempo, feliz por vez a antiga Anna, toda paixão, toda momento, toda intensidade, de volta. Não restou mais nada que não fosse sair do avião e tentar correr para alcançá-la. Sabia que não conseguiria acompanhá-la, mas, tinha que tentar. Parou e viu a imagem da moça se apagar no horizonte.
Seria a chance de sua vida. O sonho de qualquer princesinha. Depois do casamento (belo, sim), mudar com o recém-compartilhador-de-uma-vida para a França, fazer um Mestrado, algo fantástico. Ahh, e Paris, o cheiro de Paris, o brilho de Paris. O brilho estava nos olhos dela quando soube da aprovação da Universidade francesa. No momento não pensou duas vezes: ela iria. Ele iria também, por óbvio. Em verdade, o rapaz realmente a amava. Os dois se amavam. Mas, faltava algo. Toda aquela felicidade e um vazio no coração, faltava algo.
De pé, olhando pro avião, sentindo o cheiro da borracha queimando no asfalto fervente, Anna percebeu o que estava faltando. Sussurrou consigo mesmo, na esperança vã de que o marido (o seu amor) conseguisse ouvir, sussurrou “me espera, já estou voltando”. Ele não ouviu. Ela correu atrás do que estava faltando. Ele correu atrás dela, mas não a alcançou.
Apressada, o tempo estava acabando, o mundo estava acabando. O fim dos tempos, do mundo, o fim dos táxis. Não passava nenhum. Não pensou duas vezes e chegou até um casal que estava preste a sair com um carro alugado. Eram franceses. Perguntou onde estavam indo. Talvez o dedinho de Deus aqui, nesse ponto, tenha ajudado. Servia. Teria que andar um pouquinho, mas, vá lá, chegaria.
O francês voou, quase que literalmente. Afinal, a parada que fizeram no meio do caminho acabou deixando-os um pouco atrasados. Estava lá: Setor Aeroporto. Falou, quase não-falando, tamanho a fome da pressa em comer as palavras. O porteiro a deixou entrar. Já a conhecia, e tinha a festa. A festa. O elevador. Num blues solitário sentiu um mundo passar com o subir do elevador. Um mundo se assentar. O mundo que momentos antes se repousava em sua pele, no salgado da parada que fizera. Um mundo que repousou e agora, no elevador, se fixou. A festa.
Estavam todos ali. Era o aniversário de Heloisa. Todos ali: Wendel, Vinícius, Heitor, Maria Clara. Quando chegou estavam no momento do “parabéns”. Chegou e no canto ficou. Observando. Uma lágrima caiu. Quando a comemoração acabou, Anna foi ao centro e de lá partiu, em cada direção, a abraçar cada um. Abraçou todos. E, com um abraço bem forte em Heloisa, sussurrou: estou atrasada.
Saiu da festa e voltou ao elevador. Por sorte, por destino, por ser, na porta do prédio havia um táxi. “Para o Aeroporto!”. O trânsito ajudou. O mundo ajudou. O tempo parou e disse “vai”. Em alguns minutos estava de volta ao lugar. Quando chegou, o marido estava ali, estava esperando-a. Parecia saber que ela voltaria. Sabia que voltaria pra ele. Não perguntou nada, simplesmente se beijaram. Um beijo profundo, verdadeiro, talvez o mais verdadeiro que já tenham dado. Depois, simplesmente disse: “o piloto passou mal e o vôo foi adiado, está pra sair agora. Vamos?”. Os dois seguiram para o hall de onde partiria o vôo. Pararam, juntos, e ficaram a olhar o avião. Anestesiados com a beleza de viver.
Entraram no avião e, já acomodados na poltrona, só então o marido perguntou “o que foi fazer?”. Ela disse “fui ver o mar”, e o beijou. Quando estava no caso do casal francês, pediu para que parassem. À sua frente a Faculdade de Direito. Parou e ficou assim. Foi então que viu um mar passando, agitado em suas ondas. Não pensou duas vezes: entrou e se banhou nas águas. Deixou que o salgado, que poderia irritar seus olhos, se pregar à sua pele. Foi então que se deu conta de quem realmente era e continuaria, para sempre, sendo. Existindo. Vivendo. Anna foi pro mar.
Preguiça. Inafastável. Preguiça de escrever sobre as coisas que vejo, que sinto, que me atrevo a dizer. Preguiça de escrever sobre tudo o que sempre escrevo. Sempre as mesmas coisas. Preguiça de escrever e de viver. Ou, talvez, preguiça de escrever e vontade de ter mais tempo para viver. É, quem sabe escrever tome nosso tempo de viver. Ou, quem sabe escrever é a forma mais divina de se alcançar a vida. Tenho de voltar a escrever...
título original: (Magnolia) lançamento: 1999 (EUA) direção: Paul Thomas Anderson. atores: Philip Seymor Hoffman, Julianne Moore, Tom Cruise. duração: 188 min gênero: Drama
O filme de Paul Thomas Anderson é, sem dúvida, uma das maiores preciosidades do cinema da década de 90. Nos apresenta um mosaico das relações humanas por meio do acompanhamento da história de vida de diversos personagens, que por diversas vezes se cruzam e rendem cenas emocionantes.
No melhor estilo "Short Cuts", "Amores Brutos" e "Crash", por cerca de três horas que, realmente, parecem passar despercebidas, tamanha coesão aplicada ao roteiro, o filme empolga do começo ao fim e, acima de tudo, nos emociona ao apresentar histórias de "gente comum" em situações insólitas, mas possíveis, que nos colocam no liame do limite. "O que fazer? Como aguentar tamanha dor?" talvez seja o questionamento mais latente nas histórias mostradas e que chega ao clímax na fantástica cena em que os personagens embalam o som de "Wise Up". Impossível não se emocionar.
Norteados pela experiência num programa de TV, os personagens destacados nos trazem fortes questionamentos. Como o personagem de Tom Cruise (perfeito, como [quase]sempre, em atuação injustamente preterida pela Academia), que cedo teve de lidar com o abandono do pai e a morte da mãe e agora, por ironia (será?), ganha a vida ensinando o machismo-alfa dominador para homens de plantão. Ou o personagem de William H. Macy, que funciona como um anúncio do que provavelmente ocorreria com o garotinho que compete atualmente no programa em foco. Juliannne Moore também está fantástica e consegue transmitir de forma intensa e instigante o peso da dor pelos atos passados e da corrosão que implica o amor inalcansável e que está se desfazendo.
Cenas antológicas, e que trazem consigo um puta questionamento (de tudo). Talvez isso seja o que mais fica ao espectador de Magnólia. Destaque para algumas: a cena em que Julianne dá um "esporro" no rapaz da farmácia; a cena em que o garotinho mija nas calças em pleno programa; a cena em que o personagem de William H. Macy diz "amar a todos", no bar; a cena final emblemática entre o casal Jim e Claudia; a já referida cena em que todos cantam "Wise Up" e, como não poderia deixar de ser, a fantástica cena-insólita da "tempestade de sapos", que consegue superar (e muito) a também insólita cena do terremoto de "Short Cuts".
Enfim, cenas que compõem esse que é, como já dito, um filme fantástico e que deve figurar, sem dúvido, no hall de qualquer admirador do bom cinema crítico.
Em 2010 a Universidade Federal de Goiás completa seus cinqüenta anos e acreditamos que essa grandiosa história foi construída, gradativamente, ao longo desse tempo por forças que atuaram em conjunto em prol da consecução de um bem maior, o desenvolvimento de um centro de saber gratuito e de qualidade no coração do Brasil.
O primeiro Reitor da UFG, Dr. Colemar Natal e Silva, hoje dá nome ao Campus que abriga a Faculdade a qual foi diretor. Sua casa, a Faculdade de Direito, é, pois, mais antiga que a UFG: foi fundada em 1898 na Cidade de Goiás e se mostrou fundamental para a realização da UFG.
Mais antigo do que a nossa querida universidade é, também, o glorioso Centro Acadêmico XI de Maio, o CAXIM, fundado em 1933, também na antiga Vila Boa. O CAXIM também se mostrou, em meados do término da década de 50, decisivo nos “bastidores” da fundação da UFG. Assim sendo, devemos parabenizar a força estudantil que também tanto colaborou para a fundação da, hoje quase cinqüentenária, UFG. O movimento discente, bem como o corpo docente, teve importância fundamental para que no dia 14 de dezembro de 1960 a UFG fosse criada.
No final da década de 1950, o CAXIM participou do ato público na Praça Cívica de Goiânia, no qual o presidente Juscelino Kubistchek assina a lei de fundação da UFG e da Universidade Federal de Santa Maria no Rio Grande do Sul.
Importantes documentos históricos que relatam esse período se encontram, atualmente, expostos na Secretaria Administrativa do CAXIM, no piso superior da FD, Pça. Universitária. Nestes ricos acervos históricos, que apresenta, inclusive, importantes ofícios com trocas de correspondências entre o Presidente do CAXIM à época e o Dr. Colemar, podemos encontrar uma flâmula comemorativa do momento, com os dizeres “O CAXIM saúda a UFG”.
Acreditamos que um fato com tamanha importância, como o cinqüentenário de nossa querida universidade, não pode deixar de exaltar os esforços feitos por importantes movimentos, segmentos e personalidades que contribuíram de forma decisiva para a hoje já tão estruturada (e em constante movimento) Universidade Federal de Goiás. Assim sendo, devemos exaltar os estudantes e as lideranças estudantis do grande Centro Acadêmico XI de Maio. O apoio conferido foi, como já exposto, fundamental para hoje estarmos comemorando tal data.
Ao longo de mais de 70 anos, nosso Centro Acadêmico vem lutando de maneira incisiva e aguerrida, tornando-se referência por suas mobilizações e articulações, principalmente através dos jornais “O Acadêmico” e “O XI de Maio”, que se tornaram os principais instrumentos combativos na proliferação de idéias e opiniões. Participou de importantes momentos históricos, como a realização, em parceria com o Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP), da “Semana Nacional Mudancista”, que tinha por finalidade pressionar a opinião pública em prol da construção da nova capital do país no Planalto Central. Desse episódio restaram algumas fotos e documentos em nosso Arquivo Histórico, tendo rendido para ambos os C.A.s envolvidos uma homenagem por parte do Presidente JK, que imortalizou seus nomes numa placa fincada na atual capital federal, congratulando-os pela atuação em prol da criação de Brasília.
Os cinqüenta anos da UFG guardam consigo muito mais do que pode parecer: guardam a luta de várias pessoas que durante esse tempo se esforçaram bastante para que a UFG se tornasse a força que hoje, no mandato de Edward Madureira Brasil, se mostra ser. Os cinqüenta anos da UFG trás consigo a força do estudante goiano e a importância histórica e combativa do glorioso CAXIM.
No dizer de Benedito Ferreira Marques, ex-Vice-Reitor da UFG e ex-Diretor da FD, e grande colaborador do CAXIM, este não está sempre à liça!
Texto publicado no site: http://portais.ufg.br/projetos/50anos/
sempre achei que tinha tempo. hoje é o tempo quem me tem se ele corre, ofego com ele e ficamos os dois parados na chuva , olhando as pessoas. nos debruçamos em sincronia nas janelas vasculhando o dentro e o fora com a mesma irreverente sofreguidão. somos parceiros nos assaltos às horas, adversários em jogos de paintball (o tempo insiste em usar diferentes cores, o que me faz nunca saber quem é na verdade o inimigo). tudo que quero é que ele nunca ande mais depressa do que posso. que me acompanhe o ritmo de passos elásticos agora (ainda), talvez pequenos e hesitantes logo um dia. o tempo é também meu melhor amante. aquele que não desistirá de mim.
[Ele estava na xerox do CA de História quando a viu e gritou:]
– Heloísaaa!
– Príncipe Heitor! Quanto tempo hein!...
– Então, nossa, faz muito tempo que não nos vemos. Mas, você continua a mesma, minha professorinha querida. Continua linda e adorável. Que estranho, hein. Só pode ser o destino. KKK’ Olha eu, que nem acredito nessas nóias de horóscopo, falando em destino, hein... Mas, fala sério, te mandei ontem um email, e hoje, depois de meses, te encontro de novo. Você recebeu o email?
- Recebi sim, e já respondi! Não viu a resposta? Mandei ontem de madrugada. Topo tudo, como dizia o Wendel, kkk.
- Que massa! Eai, o que anda fazendo de bom da vida? rsrs'
– Uai, transferi-me para o Campus da Cidade de Goiás, mas de vez em quando ainda ministro aulas especiais para o programa do Mestrado e do Doutorado aqui em Goiânia. Hoje estou aqui para uma conferência. E você, o que anda fazendo por aqui?
– Estou no intervalo da aula, um NL que estou fazendo aqui no Campus. Não sei o que me deu, acho que uma louca mesmo, só eu para, no quinto ano, vir aqui pro Samambaia.
- Qual disciplina está fazendo?
- Ah, professora. Ela se chama “Tópicos Especiais de Literatura Contemporânea II – Clarice Lispector”. É fantástica. Lá na Letras. Hoje é a última aula, despedida [você sabe, sempre fui péssimo com despedidas...]. A professora é muito legal, mas, lógico, não chega nem aos seus pés, hehehe.
- Que legal! Mas, isso é uma tentativa de fugir do Direito? Não me diga que está desanimado, hein...
- Não, professora. Nos últimos três anos estou aprendendo a gostar muito do Direito, a amar mesmo. Acho que não poderia ter feito uma escolha melhor, realmente é a minha praia. Sabe, comecei a vê-lo de uma forma crítica e ver que é possível conseguir coisas fantásticas através do Direito. E, também, o curso deu uma melhoradinha, aprendi a amar algumas matérias, como Direito Administrativo (minha preferida) e Direito Constitucional.
– Que bom! A Maria Clara também está começando a gostar, já até está estudando bem mais. Estou tão contente! Mas, me diga, o que mais está estudando ultimamente?
– Estou lendo um pouquinho de Marx (tem que ser, né? rsrs’), Freud, Habermas, Adorno, Luhmann e Boaventura de Sousa Santos. Um pouquinho de Machado, Caio Fernando Abreu, do Pessoa (ahh, o Pessoa!) e muuuita Clarice! Ah, te contar: meses atrás estava relendo os textos e slides de História Cultural da Arte. Nossa, lembrei do Beckett, do Burckhardt, do Warburg. Puts, saudade daquele tempo viu... Falando nisso encontrei o Felipe e a Ana Paula esses dias. Encontrei eles de relance lá na FD, estavam pegando uma matéria lá. Foi tão bom! Passamos a tarde inteira conversando! Eles formam só ano que vem, sabe como é, Medicina é um ano a mais. Estão naquela expectativa.
- Nossa, que bom! Saudades demais daqueles garotos! Saudade dos meninos também, do Wendel (um grande poeta, um grande pintor, um grande amigo...), do Vinícius (um gênio indomável, garoto incrivelmente engraçado e divertido, sensacional!), da Anna (ahh, minha Anninha, a garota mais sensível que já conheci, sabia?)... Como eles estão?
- Eles estão ótimos! Wendel forma comigo, em março do ano que vem, também! Anna e Vinícius estão no quarto ano, estão adorando o curso! A Anna já fala em ser professora de Direito Penal! Eles estarão na minha defesa de monografia, também! Lá será a oportunidade de nos reencontrarmos, hein!
- É mesmo, que fantástico! Que dia será mesmo? Aliás, achei o tema incrível, interessante e inédito. Um desafio, né?
- Nem me fale, Heloísa. Fiquei com medo. Ele ficou muito extenso! Puts. “A formação do sujeito jurídico contemporâneo: entre a igualdade econômica do mercado e a desigualdade material do sistema prisional – Interfaces entre Direito Crítico, Psicanálise e Mitologia”. Queria abarcar tanta coisa, fiquei com muito medo de virar uma salada e não dizer nada. Mas, lancei o trabalho num concurso de monografias e acabei ganhando! Agora eles querem publicá-la como livro. Mas penso que vou encurtar um pouquinho esse título, está enorme. Ahh, a defesa da monografia será na próxima quinta-feira, às 20 horas, aqui mesmo na FD.
- Nossa, Heitor, ganhou prêmio e vai virar escritor! Que lindo! Que orgulho estou sentindo de você! Eu lhe disse, se lembra? Você ainda iria brilhar muito! Passar por muitos desafios, pessoas que não vão gostar de você, mas, com essa determinação sua, que é única, você ia conseguir tudo! Estou tão contente! E pode saber: já marquei na minha agenda a sua defesa, hein! Assim que li o email ontem, já fui anotando...
- É, vai ser muito bom nos reunirmos de novo. Nossa, hoje vejo o quanto foi importante os momentos que juntos vivemos, que vão ficar sempre marcados, tenho certeza, em todos nós. E você ainda está me devendo uma saída para um barzinho, hein! Não pense que eu esqueci daquela vez que teve o teatro, o Company, hein. Depois da defesa, vamos todos para um barzinho!
– Ah, claro, hehe. Combinadíssimo! E me visitem depois, tenho uma casa lá no Bacalhau, perto do rio. É só me mandar um e-mail. Continuo on-line. rsrs'
– Tá certo, professora, vou articular com o pessoal para passarmos a virada do Ano Novo lá, pode ser? O que acha? Tudo regado a uma boa filosofia, filmes, músicas e... vinho!
- Nossa, que idéia ótima, Heitor! Lidera lá o pessoal, por mim tá fechadíssimo! Já vou organizando a casa, rsrs, pra não passar vergonha...
- Heloísa, tenho que ir agora. Minha aula já vai começar. Foi muuuito bom te encontrar hoje, hein! Foi maravilhoso! Vamos mantendo o contato! Não some das nossas vidas, hein?! Muitas saudades da senhora!!!
– Saudades também, meu querido! Parabéns pelo prêmio, pelo livro, pela defesa, e por ser essa pessoa doce e meiga!
- Até quinta, professorinha!
- Até lá, meu príncipe!
[E ele sumiu no vão do corredor. Heitor tirou nota máxima na defesa. Depois, finalmente, foram para o tão esperado barzinho. A virada de ano, na cidade de Goiás, foi incrível. Todos reunidos, para ver o pôr-do-sol, a “hora azul”. E, tomando um delicioso vinho até badalar a meia-noite. E eles continuaram se encontrando, marcando encontros em festivais de cinema, literatura, artes, se encontrando nas diferentes casas, assistindo filmes, indo ao cinema, e trocando e-mails por muitos e muitos anos...]
Chegou à frente do computador. Abriu o chat. Para ninguém lhe impugnar crueldade ou insensibilidade, decidiu dar uma última chance para o amor: jurou pra si mesmo que caso ela puxasse naquele momento, qualquer assunto, ele iria esquecer toda a tensão e estaria disposto a começar tudo do zero, recomeçar a história. Qualquer assunto, a hiperinflação argentina, a queda do muro da Tanzânia, a troca de sexo de amigo em comum, algum episódio de Caverna do Dragão, enfim, qualquer coisa. Bastava um “oi”, um sinal de vida, e tudo estaria resolvido. Ela voltaria à sua vida, entraria na porta da frente, de gala. Não disse nada. Ficou calada, muda. Saiu pela porta dos fundos que, agora ele fazia questão de trancar. Ela ficou em silêncio, como fez nos últimos dois meses em que estavam sem se falar. A janelinha do chat subiu. Ela estava on. Quinze minutos, ele iria esperar quinze minutos. Trinta se passaram e nada. Decidiu: iria colocar um ponto final, em tudo. Mandou um email.
Ela abriu o chat. Naquele dia pensara em sua vida e tinha tomado uma decisão: iria esquecê-lo de uma vez por todas e se entregar à nova paixão. Entrou, então, no chat para falar com essa tal nova paixão, não tão nova assim. Fazia cerca de dois meses que não conversavam. Clicou na janela de bate-papo. Não deu nada. O programa estava com defeito. Talvez seja vírus. No dia seguinte viu que recebera um email dele, acabando com tudo. Terminando tudo que nem existia.
Agora entendo: sofro de um mal! Uma maldição, uma verdadeira praga que alguém jogou em mim ou em algum dos meus antepassados, em alguma encruzilhada de minha gigantesca árvore genealógica. Sofro de um mal: por que me apaixono por todas as meninas que me olham e me encaram nos olhos? Por que me apaixono por todas as meninas que são [um pouco que seja] simpáticas comigo? Por que quando estou em um ônibus e vejo uma guria e a acho bonita, ou melhor, “compatível com minhas preferências”, e se esta olha o rapaz que está atrás de mim e, num desvio qualquer de percepção, penso que está me encarando, logo me vejo apaixonado por aquele olhar [que nem pra mim era...]? Paixão, paixão mesmo. Por que me perco em todas as mulheres que em mim despertam o mistério, que em mim despertam algo a se descobrir? Quero descobrir. Mas descobrir tanta coisa em tantas mulheres? Vou acabar me afogando em tanta água e acabarei não descobrindo nada, não desvelando o mistério de nenhuma de minhas amadas amantes. Sofro de um mal: por que todas as mulheres com as quais me envolvo e, simplesmente, “não dá certo”, se afastam de mim, deixamos de ser amigos e o clima se fecha? Sabedoria. Sim, uma maldição.
Na segunda me apaixonei de novo. Ontem já não era aquela paixão com “P” maiúsculo. Hoje talvez encontre outra paixão. Todo dia recomeço uma nova paixão. Todo dia a mesma solidão.
Se o meu pai tivesse nascido em uma megalópole, com certeza não teria esses incertos traços sertanejos. Se o meu pai tivesse nascido na São Paulo dos anos 80, certamente cresceria ouvindo o bom rock brasileiro na veia. Se o meu pai tivesse nascido na Paris do início do século passado, hoje seria um bon vivant admirador da clássica música clássica. Se o meu pai tivesse nascido na Liverpool dos anos 60, talvez até amigo de John poderia ter sido. Se o meu pai tivesse nascido numa rica família com berço de ouro, é provável que crescesse ouvindo Chopin e Vivaldi. O meu pai nasceu na biboca da biboca. Se o meu pai lá não tivesse nascido, talvez eu não seria eu, Alice não seria Alice, Paul não seria Paul, Godot não seria Godot, esse texto não seria assim, talvez Lispector não seria Clarice.
Levantou cedo e tomou banho e café. Ela o ajudou. Ela sempre o ajudava, talvez por remorso ou compaixão. Talvez por amor. Mas naquele dia não poderia ir com ele até o serviço. Ela, geralmente, o acompanhava no ônibus e o deixava no serviço, prestativa que era. De lá atravessava dois quarteirões e punha-se a trabalhar.
Aquele dia ele foi sozinho até o ponto-de-ônibus. Morar no “nem” lhe impunha algumas dificuldades a mais, um plus na invalidez. Buracos, britas, descidas, nem vestígio de rampa. Não que tenha sido um esforço colossal, mas, com certeza, um pouco cansativo. Parando duas vezes no meio do caminho, terminou a via sacra e, enfim, chegara ao match point.
A tarde estava ensolarada. Naquele “buraco” os pontos não tinham proteção e nem bancos. Apenas uma placa, também no meio do nada, sinalizava o abatedouro. 5 minutos. Um ônibus passou. Não era o dele. 10 minutos. Outros dois ônibus passaram. O seu ônibus estava demorando. 30 minutos. Há meia hora estava com um sol de rachar em seu rosto.
35 minutos. Uma moça, jovem, bonita, chega ao ponto. Puxa assunto, pergunta a respeito do ônibus. Esperavam o mesmo. Ele disse que, provavelmente, aconteceu algo, pois já estava lá a mais de trinta minutos. Continuaram conversando, guiando o papo pela inconformidade com o serviço de transporte coletivo, o desrrespeito dos usuários e a falta de fraternidade entre as pessoas. Ela disse que já estava atrasada e que não poderia faltar a um importante compromisso. E o ônibus não chegava.
O ônibus, enfim, se mostrou no horizonte. A moça entrou. O cadeirante pediu ao motorista que lhe ajudasse a subir. O motorista fechou a porta e seguiu viagem. A moça pediu a ele que deixasse o cadeirante entrar. O sujeito lhe disse que o ônibus estava com a porta principal emperrada, por isso já havia se atrasado e estava com seu horário comprometido. A moça seguiu viagem.
O cadeirante pôs-se a esperar, de novo. Algumas gotas começaram a cair. Logo uma verdadeira tempestade já se formava. Vovó já dizia: tarde muito quente é sinal de chuva em seguida.
O drama francês “O Oitavo Dia” se apresenta como uma crônica do dia-a-dia que vive o sujeito da contemporaneidade, do indivíduo que se vê mergulhado em um mundo de alta versatilidade, conexões e possibilidades, mas que, ao mesmo tempo, media sua vida por uma gama de responsabilidades e compromissos que se acumulam em seu cotidiano de tempo, rotina e relógio.
O filme centra seu roteiro em dois personagens principais que, a primeira vista, dificilmente poderiam manter qualquer tipo de diálogo: Georges é um garoto interiorano simples, com uma baita imaginação e que nutre, por meio do universo musical, a saudade imensa que possui de sua mãe, morta anos antes; e Harry é um empresário da cidade grande, bem sucedido profissionalmente e que está vivendo um grande fracasso em sua vida pessoal, tendo sido abandonado por sua esposa e, após sucessivos esquecimentos sob a desculpa de compromissos no trabalho, ganha o desprezo de suas filhas pequenas. A grande sacada do filme se encontra aí: nas diferenças que é possível verificar entre a vida de Harry e de Georges, o comportamento de ambos perante as contingências dadas e a forma como os dois se unem numa relação ingênua, pura e bela.
Georges possui problemas que a priori indicariam uma vida triste e amargurada, mas o que se vê é um rapaz feliz e que encontra tal felicidade nas coisas mais simples da vida: no apalpar a grama, no tocar uma árvore, no sentir a água do mar e a brisa do vento. Dono de uma sensibilidade gigantesca, Georges colore o seu mundo e encontra sentido para continuar na difícil travessia, e, como um anti-herói de Samuel Beckett, se depara com diversos momentos em que parece se abater. Destaque para aqueles momentos em que suas diferenças parecem representar uma repulsa a sua imagem e uma aparente impossibilidade de felicidade, como nas cenas em que o rapaz se encanta por algumas mulheres ditas “normais” e estas demonstram uma repulsão muito grande ao se dar conta de com quem estão lindando. A simplicidade de Georges desconstrói, abala as estruturas e as armaduras das pessoas, o seu olhar ingênuo encanta, e sua doçura desperta a amizade de Harry.
Harry é o típico atarefado, sujeito que vive para o trabalho, o bem-sucedido profissionalmente, enquadrando aqui qualquer tipo, desde o Juiz Federal até o engenheiro de uma multi-nacional. Harry é a expressão de um tempo: de um período que dissolveu a subjetividade e a autenticidade do sujeito em prol de números e resultados práticos e o mais rápido possível. Harry é o indivíduo da produtividade, da educação bancária tão criticada por Paulo Freire. É um importante chefe de departamento de um banco, o Future Bank (nome bastante sugestivo), e ganha sua vida proferindo típicas palestras de auto-ajuda, sem se dar conta de que quem realmente está precisando de ajuda é o próprio. Vende um produto, uma idéia, a do vendedor bem-sucedido, e acaba por incorporar o sistema, como bem dito por sua mulher, Julie, em uma cena da película. Harry e Julie se separaram recentemente e o motivo alegado é que esta não aceita que sua vida se resuma a simples sobreposição de fatos cotidianos, ao seguimento de uma rotina tão bem estruturada no filme pela repetição de cenas que indicam o começo do dia, com data, horário e temperatura da cidade. Julie quer mais, quer uma vida de verdade, quer a felicidade de não viver preso nas responsabilidades que criamos a cada dia.
Após um encontro ocasional, no qual Harry, cansado de sua “vidinha” arrisca-se pela primeira vez, dirigindo às cegas numa noite chuvosa em que acaba por atropelar o cachorro de Georges, a morte inicial representa o início de uma vida: o cão morre e Harry nasce para uma vida de verdade. O relacionamento dos dois não é nada fácil, sobretudo pelas especialidades que Harry deve ter no trato com Georges. Exemplo emblemático é a tentativa de abandono que ocorre ainda no início do filme, seguido por uma das cenas mais emocionantes, na qual Harry retorna ao local em que havia deixado Georges e ao, encontrá-lo debaixo de chuva, os dois se abraçam emocionados e Georges se refere a Harry como um “amigo”.
Talvez a maior ironia do filme esteja contida em uma cena na qual a personagem Fabienne, a irmã de Georges, diz que não pode ficar com o garoto, pois a vida com este seria um grande peso, impossível de se realizar. Acontece que, com Harry, é exatamente o contrário que ocorre: é ao lado de Georges que esse aprende a viver, uma aprendizagem digna de Clarice Lispector; aprender os prazeres da vida e como os desfrutá-los da melhor forma possível; aprender a rir das situações esnobes da vida (como bem o faz já no final do filme, quando os “excepcionais” invadem a sala onde o empresário estava palestrando); e a curtir intensamente cada momento, cada mordida em um chocolate. Aqui, talvez, se encontre uma crítica às problemáticas jurídicas: possuímos a tendência de tudo normatizar e tentar enquadrar em esquemas pré-constituídos de felicidade, e dificilmente percebemos que ser feliz, às vezes, exige o rompimento de uma normatividade que nos recalca, nos limita e nos amputa. Uma cena que expressa de forma fantástica esse pensamento é a da lanchonete, na qual Georges com toda sua simplicidade come batatinhas livremente com a mão e depois de “desafiar” uma garotinha à distância, acompanha o pai da referida menina a reprimindo para que não coma daquela forma.
O filme se desenrola, então, a partir da aprendizagem que Georges promove a Harry, isto mesmo: é Georges quem ensina a Harry, é o “mongol” que ensina ao homem de terno. Ou melhor: é uma dupla aprendizagem, um ensinamento de mão dupla, pois Harry, em diversos momentos, também ensina Georges, ensina a ter força, ensina o sentimento que pode estar guardado em um abraço.
“O Oitavo Dia” é assim: um filme simples, como a história que pretende contar. Um filme que faz uso de imagens musicais, devaneios, cenários paralelos, uma linda fotografia e um roteiro que nos pega do início ao fim, em uma condução impossível de não se emocionar. Não é atoa que o filme foi o primeiro (e único) a dividir o prêmio do Festival de Cannes de melhor ator, que foi dividido entre Daniel Auteuil e Pascal Duquenne.
Último destaque para o fato do filme realmente conseguir sensibilizar (e muito) sem se apegar na apelação sentimentalista com o fato do personagem Georges possuir Síndrome de Down: o nome da síndrome sequer é dito ao longo de todo o filme, afinal, o tema central do filme não é a síndrome ou o personagem excepcional, e sim a discussão a respeito das relações humanas atuais e sua fragilidade e efemeridade.
P.S.: difícil entender o título do texto sem ver o filme. Confiram!