sábado, 19 de março de 2011

A Vigésima Análise

Para Heitor, seus vinte anos.

Quantos anos vive um homem?
Quanto tempo carrega a face,
as costas
a cruz pesada?

Agora são vinte cruzes,
crucifixos da vitória.
São vinte fluidos
que não se fixam
todos eles infixáveis:
astutos correm soltos
entre os dedos do futuro.

Há sol a pino,
não é tarde.
Vejo grandes edificações
e a paz de suas sombras
de seus frutos
de seus medos

Em luta resistimos
sem o heroísmo dos resistentes.
Resistimos, somente
à vital batalha.

Lutou-se, com fastio, pela manhã.
E veio a manhã
a tarde, a noite
os entardeceres crepusculares:
Todos - não tardarão.

Nesse ínterim,
enquanto vivos, perguntaremos.
Conservaremos na alma a manhã,
na alma a noite,
a alma noturna.

No dia seguinte os frutos
maduros
se oferecerão submissos.
E ante a lâmina
incerteza da vida
haverá, tão somente,
a própria vida.

Vinícius Sado Rodrigues,
18 de março, 2011.


domingo, 6 de março de 2011

Perfume



Ele se encantou por várias flores, mas, talvez por algum feitiço jogado por algum invejoso ou mal afeto, sempre que ia cheirar os perfumes destas, elas em pó se transformavam. Tinha um dom, ou um anti-dom: conseguia destruir todas as flores em que tocava, todas que conseguiu um dia possuir. Quando pensou que com a rosa seria diferente, lá estava sua mão queimando a pobre florzinha. Racionalizou para si mesmo que com a dália não foi culpa sua. “Foi culpa dela”, dizia, talvez para tentar fazer com que ele próprio acreditasse nessa inverdade. Encontrou a magnólia, quando pensou que fosse o fim de tudo, e jurou que faria de outra forma, que dessa vez daria certo. Sua grosseria, seu modo bronco, rústico e insensível, entretanto, logo decepou a flor. Foi então que percebeu que amava demais todas as flores e que poderia viver apenas admirando-as, subentendido na distância. Assim as manteria vivas. Conseguiria manter-se vivo. Decidiu: ele decidiu, desde então se afastaria de todas as flores com as quais pudesse ter contato. Esconderia qualquer charme ou qualidade que por ventura pudessem encontrar encobertos em sua carcaça grossa e mostraria a todas apenas o seu lado desprezível. Nunca mais tocaria seu nariz nas pétalas, mas sempre sentiria o perfume das flores levado pela força do vento a vivificar seu coração.



terça-feira, 1 de março de 2011

Ferida Aberta

Não é da noite para o dia
Que se cicatriza a ferida
Que instalou-se no peito
Em hora distraída

Há de arder silenciosa
Igual a solidão andante
Antes que se desvaneça
Como um vulto distante

Há de se consumir pouco a pouco
Como instante trote lento
Até que se extinga
Num vôo rasante do vento

Da noite para o dia
Não se cicatriza a ferida
Que fez no âmago moradia

Há de rastejar risonhamente
Igual ao ordinário réptil
À caça do que lhe sacie o ventre



quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Anna Foi Pro Mar



Anna foi pro mar. Mas, antes estava prestes a ir pro ar. Estava a um passo de entrar no avião, o marido já estava lá e percebeu quando a garota parou, fixa no pensamento, e assim se manteve por poucos minutos (que guardaram consigo a eternidade, um mundo). Parou e pensou. Quando uma lágrima caiu, virou e já não estava mais lá. O marido, absorto, foi pego pela surpresa, mas, ao mesmo tempo, feliz por vez a antiga Anna, toda paixão, toda momento, toda intensidade, de volta. Não restou mais nada que não fosse sair do avião e tentar correr para alcançá-la. Sabia que não conseguiria acompanhá-la, mas, tinha que tentar. Parou e viu a imagem da moça se apagar no horizonte.
 Seria a chance de sua vida. O sonho de qualquer princesinha. Depois do casamento (belo, sim), mudar com o recém-compartilhador-de-uma-vida para a França, fazer um Mestrado, algo fantástico. Ahh, e Paris, o cheiro de Paris, o brilho de Paris. O brilho estava nos olhos dela quando soube da aprovação da Universidade francesa. No momento não pensou duas vezes: ela iria. Ele iria também, por óbvio. Em verdade, o rapaz realmente a amava. Os dois se amavam. Mas, faltava algo. Toda aquela felicidade e um vazio no coração, faltava algo.
 De pé, olhando pro avião, sentindo o cheiro da borracha queimando no asfalto fervente, Anna percebeu o que estava faltando. Sussurrou consigo mesmo, na esperança vã de que o marido (o seu amor) conseguisse ouvir, sussurrou “me espera, já estou voltando”. Ele não ouviu. Ela correu atrás do que estava faltando. Ele correu atrás dela, mas não a alcançou.
 Apressada, o tempo estava acabando, o mundo estava acabando. O fim dos tempos, do mundo, o fim dos táxis. Não passava nenhum. Não pensou duas vezes e chegou até um casal que estava preste a sair com um carro alugado. Eram franceses. Perguntou onde estavam indo. Talvez o dedinho de Deus aqui, nesse ponto, tenha ajudado. Servia. Teria que andar um pouquinho, mas, vá lá, chegaria.
 O francês voou, quase que literalmente. Afinal, a parada que fizeram no meio do caminho acabou deixando-os um pouco atrasados. Estava lá: Setor Aeroporto. Falou, quase não-falando, tamanho a fome da pressa em comer as palavras. O porteiro a deixou entrar. Já a conhecia, e tinha a festa. A festa. O elevador. Num blues solitário sentiu um mundo passar com o subir do elevador. Um mundo se assentar. O mundo que momentos antes se repousava em sua pele, no salgado da parada que fizera. Um mundo que repousou e agora, no elevador, se fixou. A festa.
 Estavam todos ali. Era o aniversário de Heloisa. Todos ali: Wendel, Vinícius, Heitor, Maria Clara. Quando chegou estavam no momento do “parabéns”. Chegou e no canto ficou. Observando. Uma lágrima caiu. Quando a comemoração acabou, Anna foi ao centro e de lá partiu, em cada direção, a abraçar cada um. Abraçou todos. E, com um abraço bem forte em Heloisa, sussurrou: estou atrasada.
 Saiu da festa e voltou ao elevador. Por sorte, por destino, por ser, na porta do prédio havia um táxi. “Para o Aeroporto!”. O trânsito ajudou. O mundo ajudou. O tempo parou e disse “vai”. Em alguns minutos estava de volta ao lugar. Quando chegou, o marido estava ali, estava esperando-a. Parecia saber que ela voltaria. Sabia que voltaria pra ele. Não perguntou nada, simplesmente se beijaram. Um beijo profundo, verdadeiro, talvez o mais verdadeiro que já tenham dado. Depois, simplesmente disse: “o piloto passou mal e o vôo foi adiado, está pra sair agora. Vamos?”. Os dois seguiram para o hall de onde partiria o vôo. Pararam, juntos, e ficaram a olhar o avião. Anestesiados com a beleza de viver.
 Entraram no avião e, já acomodados na poltrona, só então o marido perguntou “o que foi fazer?”. Ela disse “fui ver o mar”, e o beijou. Quando estava no caso do casal francês, pediu para que parassem. À sua frente a Faculdade de Direito. Parou e ficou assim. Foi então que viu um mar passando, agitado em suas ondas. Não pensou duas vezes: entrou e se banhou nas águas. Deixou que o salgado, que poderia irritar seus olhos, se pregar à sua pele. Foi então que se deu conta de quem realmente era e continuaria, para sempre, sendo. Existindo. Vivendo. Anna foi pro mar.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Eu escrevo um texto que não me satisfaz

Preguiça. Inafastável. Preguiça de escrever sobre as coisas que vejo, que sinto, que me atrevo a dizer. Preguiça de escrever sobre tudo o que sempre escrevo. Sempre as mesmas coisas. Preguiça de escrever e de viver. Ou, talvez, preguiça de escrever e vontade de ter mais tempo para viver. É, quem sabe escrever tome nosso tempo de viver. Ou, quem sabe escrever é a forma mais divina de se alcançar a vida. Tenho de voltar a escrever...


segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Mosaico do Insólito

MAGNÓLIA

título original: (Magnolia)
lançamento: 1999 (EUA)
direção: Paul Thomas Anderson.
atores: Philip Seymor Hoffman, Julianne Moore, Tom Cruise.
duração: 188 min
gênero: Drama
O filme de Paul Thomas Anderson é, sem dúvida, uma das maiores preciosidades do cinema da década de 90. Nos apresenta um mosaico das relações humanas por meio do acompanhamento da história de vida de diversos personagens, que por diversas vezes se cruzam e rendem cenas emocionantes.

No melhor estilo "Short Cuts", "Amores Brutos" e "Crash", por cerca de três horas que, realmente, parecem passar despercebidas, tamanha coesão aplicada ao roteiro, o filme empolga do começo ao fim e, acima de tudo, nos emociona ao apresentar histórias de "gente comum" em situações insólitas, mas possíveis, que nos colocam no liame do limite. "O que fazer? Como aguentar tamanha dor?" talvez seja o questionamento mais latente nas histórias mostradas e que chega ao clímax na fantástica cena em que os personagens embalam o som de "Wise Up". Impossível não se emocionar.

Norteados pela experiência num programa de TV, os personagens destacados nos trazem fortes questionamentos. Como o personagem de Tom Cruise (perfeito, como [quase]sempre, em atuação injustamente preterida pela Academia), que cedo teve de lidar com o abandono do pai e a morte da mãe e agora, por ironia (será?), ganha a vida ensinando o machismo-alfa dominador para homens de plantão. Ou o personagem de William H. Macy, que funciona como um anúncio do que provavelmente ocorreria com o garotinho que compete atualmente no programa em foco. Juliannne Moore também está fantástica e consegue transmitir de forma intensa e instigante o peso da dor pelos atos passados e da corrosão que implica o amor inalcansável e que está se desfazendo.

Cenas antológicas, e que trazem consigo um puta questionamento (de tudo). Talvez isso seja o que mais fica ao espectador de Magnólia. Destaque para algumas: a cena em que Julianne dá um "esporro" no rapaz da farmácia; a cena em que o garotinho mija nas calças em pleno programa; a cena em que o personagem de William H. Macy diz "amar a todos", no bar; a cena final emblemática entre o casal Jim e Claudia; a já referida cena em que todos cantam "Wise Up" e, como não poderia deixar de ser, a fantástica cena-insólita da "tempestade de sapos", que consegue superar (e muito) a também insólita cena do terremoto de "Short Cuts".

Enfim, cenas que compõem esse que é, como já dito, um filme fantástico e que deve figurar, sem dúvido, no hall de qualquer admirador do bom cinema crítico.

Vale a pena "gastar" [ganhar] 3 horas!

sábado, 29 de janeiro de 2011

Os cinquenta anos da UFG: a importância dos estudantes neste importante processo

Em 2010 a Universidade Federal de Goiás completa seus cinqüenta anos e acreditamos que essa grandiosa história foi construída, gradativamente, ao longo desse tempo por forças que atuaram em conjunto em prol da consecução de um bem maior, o desenvolvimento de um centro de saber gratuito e de qualidade no coração do Brasil.
O primeiro Reitor da UFG, Dr. Colemar Natal e Silva, hoje dá nome ao Campus que abriga a Faculdade a qual foi diretor. Sua casa, a Faculdade de Direito, é, pois, mais antiga que a UFG: foi fundada em 1898 na Cidade de Goiás e se mostrou fundamental para a realização da UFG.
Mais antigo do que a nossa querida universidade é, também, o glorioso Centro Acadêmico XI de Maio, o CAXIM, fundado em 1933, também na antiga Vila Boa. O CAXIM também se mostrou, em meados do término da década de 50, decisivo nos “bastidores” da fundação da UFG. Assim sendo, devemos parabenizar a força estudantil que também tanto colaborou para a fundação da, hoje quase cinqüentenária, UFG. O movimento discente, bem como o corpo docente, teve importância fundamental para que no dia 14 de dezembro de 1960 a UFG fosse criada.
No final da década de 1950, o CAXIM participou do ato público na Praça Cívica de Goiânia, no qual o presidente Juscelino Kubistchek assina a lei de fundação da UFG e da Universidade Federal de Santa Maria no Rio Grande do Sul.
Importantes documentos históricos que relatam esse período se encontram, atualmente, expostos na Secretaria Administrativa do CAXIM, no piso superior da FD, Pça. Universitária. Nestes ricos acervos históricos, que apresenta, inclusive, importantes ofícios com trocas de correspondências entre o Presidente do CAXIM à época e o Dr. Colemar, podemos encontrar uma flâmula comemorativa do momento, com os dizeres “O CAXIM saúda a UFG”.
Acreditamos que um fato com tamanha importância, como o cinqüentenário de nossa querida universidade, não pode deixar de exaltar os esforços feitos por importantes movimentos, segmentos e personalidades que contribuíram de forma decisiva para a hoje já tão estruturada (e em constante movimento) Universidade Federal de Goiás. Assim sendo, devemos exaltar os estudantes e as lideranças estudantis do grande Centro Acadêmico XI de Maio. O apoio conferido foi, como já exposto, fundamental para hoje estarmos comemorando tal data.
Ao longo de mais de 70 anos, nosso Centro Acadêmico vem lutando de maneira incisiva e aguerrida, tornando-se referência por suas mobilizações e articulações, principalmente através dos jornais “O Acadêmico” e “O XI de Maio”, que se tornaram os principais instrumentos combativos na proliferação de idéias e opiniões. Participou de importantes momentos históricos, como a realização, em parceria com o Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP), da “Semana Nacional Mudancista”, que tinha por finalidade pressionar a opinião pública em prol da construção da nova capital do país no Planalto Central. Desse episódio restaram algumas fotos e documentos em nosso Arquivo Histórico, tendo rendido para ambos os C.A.s envolvidos uma homenagem por parte do Presidente JK, que imortalizou seus nomes numa placa fincada na atual capital federal, congratulando-os pela atuação em prol da criação de Brasília.
Os cinqüenta anos da UFG guardam consigo muito mais do que pode parecer: guardam a luta de várias pessoas que durante esse tempo se esforçaram bastante para que a UFG se tornasse a força que hoje, no mandato de Edward Madureira Brasil, se mostra ser. Os cinqüenta anos da UFG trás consigo a força do estudante goiano e a importância histórica e combativa do glorioso CAXIM.
No dizer de Benedito Ferreira Marques, ex-Vice-Reitor da UFG e ex-Diretor da FD, e grande colaborador do CAXIM, este não está sempre à liça!

Texto publicado no site: http://portais.ufg.br/projetos/50anos/


Tic-tac



sempre achei que tinha tempo.
hoje é o tempo quem me tem
se ele corre, ofego com ele
e ficamos os dois parados na chuva , olhando as pessoas.
nos debruçamos em sincronia nas janelas
vasculhando o dentro e o fora
com a mesma irreverente sofreguidão.
somos parceiros nos assaltos às horas,
adversários  em jogos de paintball
(o tempo insiste em usar diferentes cores,
o que me faz nunca saber
quem é na verdade o inimigo).
tudo que quero é que ele
nunca ande mais depressa do que posso.
que me acompanhe o ritmo de passos
elásticos agora (ainda),
talvez pequenos e hesitantes logo um dia.
o tempo é também meu melhor amante.
aquele que não desistirá de mim. 


Perséfone.




quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Como Uma Onda No Mar III


Ao mestre com carinho, para Heloísa Capel.

 [Ele estava na xerox do CA de História quando a viu e gritou:]
– Heloísaaa!
– Príncipe Heitor! Quanto tempo hein!...
– Então, nossa, faz muito tempo que não nos vemos. Mas, você continua a mesma, minha professorinha querida. Continua linda e adorável. Que estranho, hein. Só pode ser o destino. KKK’ Olha eu, que nem acredito nessas nóias de horóscopo, falando em destino, hein... Mas, fala sério, te mandei ontem um email, e hoje, depois de meses, te encontro de novo. Você recebeu o email?
- Recebi sim, e já respondi! Não viu a resposta? Mandei ontem de madrugada. Topo tudo, como dizia o Wendel, kkk.
- Que massa! Eai, o que anda fazendo de bom da vida? rsrs'
– Uai, transferi-me para o Campus da Cidade de Goiás, mas de vez em quando ainda ministro aulas especiais para o programa do Mestrado e do Doutorado aqui em Goiânia. Hoje estou aqui para uma conferência. E você, o que anda fazendo por aqui?
– Estou no intervalo da aula, um NL que estou fazendo aqui no Campus. Não sei o que me deu, acho que uma louca mesmo, só eu para, no quinto ano, vir aqui pro Samambaia.
- Qual disciplina está fazendo?
- Ah, professora. Ela se chama “Tópicos Especiais de Literatura Contemporânea II – Clarice Lispector”. É fantástica. Lá na Letras. Hoje é a última aula, despedida [você sabe, sempre fui péssimo com despedidas...]. A professora é muito legal, mas, lógico, não chega nem aos seus pés, hehehe.
- Que legal! Mas, isso é uma tentativa de fugir do Direito? Não me diga que está desanimado, hein...
- Não, professora. Nos últimos três anos estou aprendendo a gostar muito do Direito, a amar mesmo. Acho que não poderia ter feito uma escolha melhor, realmente é a minha praia. Sabe, comecei a vê-lo de uma forma crítica e ver que é possível conseguir coisas fantásticas através do Direito. E, também, o curso deu uma melhoradinha, aprendi a amar algumas matérias, como Direito Administrativo (minha preferida) e Direito Constitucional.
– Que bom! A Maria Clara também está começando a gostar, já até está estudando bem mais. Estou tão contente! Mas, me diga, o que mais está estudando ultimamente?
– Estou lendo um pouquinho de Marx (tem que ser, né? rsrs’), Freud, Habermas, Adorno, Luhmann e Boaventura de Sousa Santos. Um pouquinho de Machado, Caio Fernando Abreu, do Pessoa (ahh, o Pessoa!) e muuuita Clarice! Ah, te contar: meses atrás estava relendo os textos e slides de História Cultural da Arte. Nossa, lembrei do Beckett, do Burckhardt, do Warburg. Puts, saudade daquele tempo viu... Falando nisso encontrei o Felipe e a Ana Paula esses dias. Encontrei eles de relance lá na FD, estavam pegando uma matéria lá. Foi tão bom! Passamos a tarde inteira conversando! Eles formam só ano que vem, sabe como é, Medicina é um ano a mais. Estão naquela expectativa.
- Nossa, que bom! Saudades demais daqueles garotos! Saudade dos meninos também, do Wendel (um grande poeta, um grande pintor, um grande amigo...), do Vinícius (um gênio indomável, garoto incrivelmente engraçado e divertido, sensacional!), da Anna (ahh, minha Anninha, a garota mais sensível que já conheci, sabia?)... Como eles estão?
- Eles estão ótimos! Wendel forma comigo, em março do ano que vem, também! Anna e Vinícius estão no quarto ano, estão adorando o curso! A Anna já fala em ser professora de Direito Penal! Eles estarão na minha defesa de monografia, também! Lá será a oportunidade de nos reencontrarmos, hein!
- É mesmo, que fantástico! Que dia será mesmo? Aliás, achei o tema incrível, interessante e inédito. Um desafio, né?
- Nem me fale, Heloísa. Fiquei com medo. Ele ficou muito extenso! Puts. “A formação do sujeito jurídico contemporâneo: entre a igualdade econômica do mercado e a desigualdade material do sistema prisional – Interfaces entre Direito Crítico, Psicanálise e Mitologia”. Queria abarcar tanta coisa, fiquei com muito medo de virar uma salada e não dizer nada. Mas, lancei o trabalho num concurso de monografias e acabei ganhando! Agora eles querem publicá-la como livro. Mas penso que vou encurtar um pouquinho esse título, está enorme. Ahh, a defesa da monografia será na próxima quinta-feira, às 20 horas, aqui mesmo na FD.
- Nossa, Heitor, ganhou prêmio e vai virar escritor! Que lindo! Que orgulho estou sentindo de você! Eu lhe disse, se lembra? Você ainda iria brilhar muito! Passar por muitos desafios, pessoas que não vão gostar de você, mas, com essa determinação sua, que é única, você ia conseguir tudo! Estou tão contente! E pode saber: já marquei na minha agenda a sua defesa, hein! Assim que li o email ontem, já fui anotando...
- É, vai ser muito bom nos reunirmos de novo. Nossa, hoje vejo o quanto foi importante os momentos que juntos vivemos, que vão ficar sempre marcados, tenho certeza, em todos nós. E você ainda está me devendo uma saída para um barzinho, hein! Não pense que eu esqueci daquela vez que teve o teatro, o Company, hein. Depois da defesa, vamos todos para um barzinho!
– Ah, claro, hehe. Combinadíssimo! E me visitem depois, tenho uma casa lá no Bacalhau, perto do rio. É só me mandar um e-mail. Continuo on-line. rsrs'
– Tá certo, professora, vou articular com o pessoal para passarmos a virada do Ano Novo lá, pode ser? O que acha? Tudo regado a uma boa filosofia, filmes, músicas e... vinho!
- Nossa, que idéia ótima, Heitor! Lidera lá o pessoal, por mim tá fechadíssimo! Já vou organizando a casa, rsrs, pra não passar vergonha...
- Heloísa, tenho que ir agora. Minha aula já vai começar. Foi muuuito bom te encontrar hoje, hein! Foi maravilhoso! Vamos mantendo o contato! Não some das nossas vidas, hein?! Muitas saudades da senhora!!!
– Saudades também, meu querido! Parabéns pelo prêmio, pelo livro, pela defesa, e por ser essa pessoa doce e meiga!
- Até quinta, professorinha!
- Até lá, meu príncipe!
[E ele sumiu no vão do corredor. Heitor tirou nota máxima na defesa. Depois, finalmente, foram para o tão esperado barzinho. A virada de ano, na cidade de Goiás, foi incrível. Todos reunidos, para ver o pôr-do-sol, a “hora azul”. E, tomando um delicioso vinho até badalar a meia-noite. E eles continuaram se encontrando, marcando encontros em festivais de cinema, literatura, artes, se encontrando nas diferentes casas, assistindo filmes, indo ao cinema, e trocando e-mails por muitos e muitos anos...]


domingo, 23 de janeiro de 2011

2, 1000 e 10

Assim foi 2010:
espantado, corrido
o tempo passando dolorido
no peito de quem amou.
Pouco se amou em 2010 -
mas ninguém reclamou
do pão, da carne
da prestação do imóvel
impróprio para habitação
e aumentou a drummoniana fila do feijão
enquanto vinha nova informação
intumescendo 2010
ano que pachorrentamente
deglutia 2009
sua crise, sua gripe
sua morte da estrela
e a unidade numérica
pobre um
se sentia magra
exígua virgular
interrompendo a oratória penetrante
do olhar
que formavam os zeros inquietantes
na conta bancária
milionária
da high-perdulária em 2009.

2010 rimou com desilusão
poço sem fundo
gosto de derrota
na copa do mundo.
E seguindo o fluxo
mercantil
disseram avante, Brasil
e 2010 atravessou
com cheiro de casa nova
dos programas de habitação
moradia, meu irmão
temos teto
temos chão
e o Brasil é maravilhoso porque não tem terremoto.

Em 2010 saiu do ar
poluído, acrise ecológica
e saiu para dar lugar
à violência patológica
ao assassinato da mulher
do jogador
do clube de futebol
e dos novos ricos.
A publicidade
sem muito esforço
mostrou-nos novamente belo corpo -
o corpo ainda não foi encontrado.
A imprensa, mais em 2010
em seu poder refratário,
usando de imbatível retórica
meteu-se a judiciário
e não bastasse o criminal
palpitou na zona eleitoral
com seu ar sempre jurídico
grave
circunspecto comedido
com argumento de autoridade
(ou autoritário
sensacionalista panfletário).
 E 2010 já respirava cansado
quando soaram
as trombetas da cidadania
convocando o jogo democrático
e na feira da democracia
houve a surpresa da verdura
embora pareça sem cura
(ao menos para as donas de casa que fizeram o Normal)
esse amontoado de horrores
que são os fornecedores:
cultivam a mesma espécie
e disfarçam com facetas várias
o que foi plantado nas mesmas terras
latifundiárias -
mas não tem problema 
se faltou arroz no Natal
em Copacabana
houve fogos, foi sensacional
que beleza ficou o céu
acima do Palace Hotel
decretando: continuará em janeiro
sendo este o Rio verdadeiro.
E façamos jus ao carnaval
que marcará 2011,
seu ponto inicial
e apesar das unidades com fome
no fim do numeral
tenhamos esperanças
um pé atrás
e nas mãos desconfianças.
E para elas há motivos, não há?
Ora, minha gente,
vamos combinar
2010 foi deprimente
de uma tristeza crepuscular.
Vinícius Sado Rodrigues
 

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Ponto Final



Chegou à frente do computador. Abriu o chat. Para ninguém lhe impugnar crueldade ou insensibilidade, decidiu dar uma última chance para o amor: jurou pra si mesmo que caso ela puxasse naquele momento, qualquer assunto, ele iria esquecer toda a tensão e estaria disposto a começar tudo do zero, recomeçar a história. Qualquer assunto, a hiperinflação argentina, a queda do muro da Tanzânia, a troca de sexo de amigo em comum, algum episódio de Caverna do Dragão, enfim, qualquer coisa. Bastava um “oi”, um sinal de vida, e tudo estaria resolvido. Ela voltaria à sua vida, entraria na porta da frente, de gala. Não disse nada. Ficou calada, muda. Saiu pela porta dos fundos que, agora ele fazia questão de trancar. Ela ficou em silêncio, como fez nos últimos dois meses em que estavam sem se falar. A janelinha do chat subiu. Ela estava on. Quinze minutos, ele iria esperar quinze minutos. Trinta se passaram e nada. Decidiu: iria colocar um ponto final, em tudo. Mandou um email.
Ela abriu o chat. Naquele dia pensara em sua vida e tinha tomado uma decisão: iria esquecê-lo de uma vez por todas e se entregar à nova paixão. Entrou, então, no chat para falar com essa tal nova paixão, não tão nova assim. Fazia cerca de dois meses que não conversavam. Clicou na janela de bate-papo. Não deu nada. O programa estava com defeito. Talvez seja vírus. No dia seguinte viu que recebera um email dele, acabando com tudo. Terminando tudo que nem existia.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Ayer

O homem estático mira a Pietà

Ayer

O homem sonha com o poema que vai escrever

Ayer

O homem pensa que quer convidá-la para dançar

Ayer

O homem tem vontade de trabalhar

Ayer

O homem põe seus óculos e projeta

Ayer
O homem cultiva orquídeas em casa

Ayer

Fotografa o céu

Fumando se distrai, a vida lhe responde pronta e submissa

Ayer ayer ayer

O homem sorri, não pensa na morte

Mas isso foi ontem.

Anna Maria Nunes Machado
 

Brilho Eterno de uma Mente Amaldiçoada



Agora entendo: sofro de um mal! Uma maldição, uma verdadeira praga que alguém jogou em mim ou em algum dos meus antepassados, em alguma encruzilhada de minha gigantesca árvore genealógica. Sofro de um mal: por que me apaixono por todas as meninas que me olham e me encaram nos olhos? Por que me apaixono por todas as meninas que são [um pouco que seja] simpáticas comigo? Por que quando estou em um ônibus e vejo uma guria e a acho bonita, ou melhor, “compatível com minhas preferências”, e se esta olha o rapaz que está atrás de mim e, num desvio qualquer de percepção, penso que está me encarando, logo me vejo apaixonado por aquele olhar [que nem pra mim era...]? Paixão, paixão mesmo. Por que me perco em todas as mulheres que em mim despertam o mistério, que em mim despertam algo a se descobrir? Quero descobrir. Mas descobrir tanta coisa em tantas mulheres? Vou acabar me afogando em tanta água e acabarei não descobrindo nada, não desvelando o mistério de nenhuma de minhas amadas amantes. Sofro de um mal: por que todas as mulheres com as quais me envolvo e, simplesmente, “não dá certo”, se afastam de mim, deixamos de ser amigos e o clima se fecha? Sabedoria. Sim, uma maldição.
Na segunda me apaixonei de novo. Ontem já não era aquela paixão com “P” maiúsculo. Hoje talvez encontre outra paixão. Todo dia recomeço uma nova paixão. Todo dia a mesma solidão.

Maybe

 
 
Se o meu pai tivesse nascido em uma megalópole, com certeza não teria esses incertos traços sertanejos. Se o meu pai tivesse nascido na São Paulo dos anos 80, certamente cresceria ouvindo o bom rock brasileiro na veia. Se o meu pai tivesse nascido na Paris do início do século passado, hoje seria um bon vivant admirador da clássica música clássica. Se o meu pai tivesse nascido na Liverpool dos anos 60, talvez até amigo de John poderia ter sido. Se o meu pai tivesse nascido numa rica família com berço de ouro, é provável que crescesse ouvindo Chopin e Vivaldi. O meu pai nasceu na biboca da biboca. Se o meu pai lá não tivesse nascido, talvez eu não seria eu, Alice não seria Alice, Paul não seria Paul, Godot não seria Godot, esse texto não seria assim, talvez Lispector não seria Clarice.
 
 

domingo, 9 de janeiro de 2011

A Fraternidade é Vermelho Fogo

Levantou cedo e tomou banho e café. Ela o ajudou. Ela sempre o ajudava, talvez por remorso ou compaixão. Talvez por amor. Mas naquele dia não poderia ir com ele até o serviço. Ela, geralmente, o acompanhava no ônibus e o deixava no serviço, prestativa que era. De lá atravessava dois quarteirões e punha-se a trabalhar.
Aquele dia ele foi sozinho até o ponto-de-ônibus. Morar no “nem” lhe impunha algumas dificuldades a mais, um plus na invalidez. Buracos, britas, descidas, nem vestígio de rampa. Não que tenha sido um esforço colossal, mas, com certeza, um pouco cansativo. Parando duas vezes no meio do caminho, terminou a via sacra e, enfim, chegara ao match point.
A tarde estava ensolarada. Naquele “buraco” os pontos não tinham proteção e nem bancos. Apenas uma placa, também no meio do nada, sinalizava o abatedouro. 5 minutos. Um ônibus passou. Não era o dele. 10 minutos. Outros dois ônibus passaram. O seu ônibus estava demorando. 30 minutos. Há meia hora estava com um sol de rachar em seu rosto.
35 minutos. Uma moça, jovem, bonita, chega ao ponto. Puxa assunto, pergunta a respeito do ônibus. Esperavam o mesmo. Ele disse que, provavelmente, aconteceu algo, pois já estava lá a mais de trinta minutos. Continuaram conversando, guiando o papo pela inconformidade com o serviço de transporte coletivo, o desrrespeito dos usuários e a falta de fraternidade entre as pessoas. Ela disse que já estava atrasada e que não poderia faltar a um importante compromisso. E o ônibus não chegava.
O ônibus, enfim, se mostrou no horizonte. A moça entrou. O cadeirante pediu ao motorista que lhe ajudasse a subir. O motorista fechou a porta e seguiu viagem. A moça pediu a ele que deixasse o cadeirante entrar. O sujeito lhe disse que o ônibus estava com a porta principal emperrada, por isso já havia se atrasado e estava com seu horário comprometido. A moça seguiu viagem.
O cadeirante pôs-se a esperar, de novo. Algumas gotas começaram a cair. Logo uma verdadeira tempestade já se formava. Vovó já dizia: tarde muito quente é sinal de chuva em seguida.


sábado, 8 de janeiro de 2011

O que veio depois da criação?

O OITAVO DIA

título original: Le Huitième Jour
lançamento: 1996 (Bélgica, França, Inglaterra)
direção: Jaco van Dormael
elenco:
Daniel Auteuil (Harry)
Pascal Duquenne (Georges)
Miou-Miou (Julie)
Isabelle Sadoyan (Mãe de George)
Michele Maes (Nathalie)
Fabienne Loriaux (Fabienne)
Hélène Roussel (Mãe de Julie)
duração: 118 min
gênero: Drama



O drama francês “O Oitavo Dia” se apresenta como uma crônica do dia-a-dia que vive o sujeito da contemporaneidade, do indivíduo que se vê mergulhado em um mundo de alta versatilidade, conexões e possibilidades, mas que, ao mesmo tempo, media sua vida por uma gama de responsabilidades e compromissos que se acumulam em seu cotidiano de tempo, rotina e relógio.
O filme centra seu roteiro em dois personagens principais que, a primeira vista, dificilmente poderiam manter qualquer tipo de diálogo: Georges é um garoto interiorano simples, com uma baita imaginação e que nutre, por meio do universo musical, a saudade imensa que possui de sua mãe, morta anos antes; e Harry é um empresário da cidade grande, bem sucedido profissionalmente e que está vivendo um grande fracasso em sua vida pessoal, tendo sido abandonado por sua esposa e, após sucessivos esquecimentos sob a desculpa de compromissos no trabalho, ganha o desprezo de suas filhas pequenas. A grande sacada do filme se encontra aí: nas diferenças que é possível verificar entre a vida de Harry e de Georges, o comportamento de ambos perante as contingências dadas e a forma como os dois se unem numa relação ingênua, pura e bela.
Georges possui problemas que a priori indicariam uma vida triste e amargurada, mas o que se vê é um rapaz feliz e que encontra tal felicidade nas coisas mais simples da vida: no apalpar a grama, no tocar uma árvore, no sentir a água do mar e a brisa do vento. Dono de uma sensibilidade gigantesca, Georges colore o seu mundo e encontra sentido para continuar na difícil travessia, e, como um anti-herói de Samuel Beckett, se depara com diversos momentos em que parece se abater. Destaque para aqueles momentos em que suas diferenças parecem representar uma repulsa a sua imagem e uma aparente impossibilidade de felicidade, como nas cenas em que o rapaz se encanta por algumas mulheres ditas “normais” e estas demonstram uma repulsão muito grande ao se dar conta de com quem estão lindando.  A simplicidade de Georges desconstrói, abala as estruturas e as armaduras das pessoas, o seu olhar ingênuo encanta, e sua doçura desperta a amizade de Harry.
Harry é o típico atarefado, sujeito que vive para o trabalho, o bem-sucedido profissionalmente, enquadrando aqui qualquer tipo, desde o Juiz Federal até o engenheiro de uma multi-nacional. Harry é a expressão de um tempo: de um período que dissolveu a subjetividade e a autenticidade do sujeito em prol de números e resultados práticos e o mais rápido possível. Harry é o indivíduo da produtividade, da educação bancária tão criticada por Paulo Freire. É um importante chefe de departamento de um banco, o Future Bank (nome bastante sugestivo), e ganha sua vida proferindo típicas palestras de auto-ajuda, sem se dar conta de que quem realmente está precisando de ajuda é o próprio. Vende um produto, uma idéia, a do vendedor bem-sucedido, e acaba por incorporar o sistema, como bem dito por sua mulher, Julie, em uma cena da película. Harry e Julie se separaram recentemente e o motivo alegado é que esta não aceita que sua vida se resuma a simples sobreposição de fatos cotidianos, ao seguimento de uma rotina tão bem estruturada no filme pela repetição de cenas que indicam o começo do dia, com data, horário e temperatura da cidade. Julie quer mais, quer uma vida de verdade, quer a felicidade de não viver preso nas responsabilidades que criamos a cada dia.
Após um encontro ocasional, no qual Harry, cansado de sua “vidinha” arrisca-se pela primeira vez, dirigindo às cegas numa noite chuvosa em que acaba por atropelar o cachorro de Georges, a morte inicial representa o início de uma vida: o cão morre e Harry nasce para uma vida de verdade. O relacionamento dos dois não é nada fácil, sobretudo pelas especialidades que Harry deve ter no trato com Georges. Exemplo emblemático é a tentativa de abandono que ocorre ainda no início do filme, seguido por uma das cenas mais emocionantes, na qual Harry retorna ao local em que havia deixado Georges e ao, encontrá-lo debaixo de chuva, os dois se abraçam emocionados e Georges se refere a Harry como um “amigo”.
Talvez a maior ironia do filme esteja contida em uma cena na qual a personagem Fabienne, a irmã de Georges, diz que não pode ficar com o garoto, pois a vida com este seria um grande peso, impossível de se realizar. Acontece que, com Harry, é exatamente o contrário que ocorre: é ao lado de Georges que esse aprende a viver, uma aprendizagem digna de Clarice Lispector; aprender os prazeres da vida e como os desfrutá-los da melhor forma possível; aprender a rir das situações esnobes da vida (como bem o faz já no final do filme, quando os “excepcionais” invadem a sala onde o empresário estava palestrando); e a curtir intensamente cada momento, cada mordida em um chocolate. Aqui, talvez, se encontre uma crítica às problemáticas jurídicas: possuímos a tendência de tudo normatizar e tentar enquadrar em esquemas pré-constituídos de felicidade, e dificilmente percebemos que ser feliz, às vezes, exige o rompimento de uma normatividade que nos recalca, nos limita e nos amputa. Uma cena que expressa de forma fantástica esse pensamento é a da lanchonete, na qual Georges com toda sua simplicidade come batatinhas livremente com a mão e depois de “desafiar” uma garotinha à distância, acompanha o pai da referida menina a reprimindo para que não coma daquela forma.
O filme se desenrola, então, a partir da aprendizagem que Georges promove a Harry, isto mesmo: é Georges quem ensina a Harry, é o “mongol” que ensina ao homem de terno. Ou melhor: é uma dupla aprendizagem, um ensinamento de mão dupla, pois Harry, em diversos momentos, também ensina Georges, ensina a ter força, ensina o sentimento que pode estar guardado em um abraço.
“O Oitavo Dia” é assim: um filme simples, como a história que pretende contar. Um filme que faz uso de imagens musicais, devaneios, cenários paralelos, uma linda fotografia e um roteiro que nos pega do início ao fim, em uma condução impossível de não se emocionar. Não é atoa que o filme foi o primeiro (e único) a dividir o prêmio do Festival de Cannes de melhor ator, que foi dividido entre Daniel Auteuil e Pascal Duquenne.
Último destaque para o fato do filme realmente conseguir sensibilizar (e muito) sem se apegar na apelação sentimentalista com o fato do personagem Georges possuir Síndrome de Down: o nome da síndrome sequer é dito ao longo de todo o filme, afinal, o tema central do filme não é a síndrome ou o personagem excepcional, e sim a discussão a respeito das relações humanas atuais e sua fragilidade e efemeridade.
P.S.: difícil entender o título do texto sem ver o filme. Confiram!