terça-feira, 31 de maio de 2011

Momento Difícil


   Falar em momento errado é partir primeiro da constatação da existência daquilo que possivelmente vem a ser um momento certo. Mas, afinal, o que é momento certo? A etimologia garante: certo é tudo aquilo que não seja dúbio, ou seja, certo algo próximo de seguro. Discutir tais divagações, enquanto um estudante de Direito, é algo no mínimo inseguro. Isto mesmo: inseguro discutir a segurança, talvez por esta ser termo tão caro às nossas idiossincrasias jurídicas e passar quase que despercebido a sua intersecção em nossa vida cotidiana, corriqueira. Mas, estamos progredindo: é certo que certo é seguro, claro, preciso, irmão gêmeo da verdade. Ora, tudo o que é verdadeiro, por certo, é certo.


   Tudo bem, vamos deixar um pouco de lado as secreções linguísticas, até porque esse texto não e nem pretende ser um trava-línguas. Concentremo-nos no importante: o momento! É quase chocante realizar um paralelismo entre as etimologias de “cérto” e “moménto”. Ora, ao passo que o primeiro denota uma gigantesca atmosfera de certeza e precisão, o segundo é derivado de instante, movimento, impulso, “um breve movimento de tempo ou duração de um simples movimento”. Um instante, algo que se desmancha no ar, tão leve, tão rápido, tão instável, tão impreciso. Como colocar, então, no mesmo balaio duas coisas tão discrepantes? Poderiam alegar os dialéticos tratar-se de exercício não muito difícil, mas aqui meu lugar de fala não é dialético, nem tampouco jurídico. Confesso que tais divagações poderiam ter surgido de uma longa discussão com algum professor de Direito Penal, por exemplo, na fútil tentativa de filosofar sobre um momento impreciso no qual algum indivíduo acaba por disparar balas e mais balas sobre o crânio alheio. Talvez mais digno se tornaria este texto se assim fosse sua gênese. Mas, não, vomito tais palavras por motivos estritamente pessoais, na vão lembrança de que por dentro de um medíocre estudante das ciências jurídicas reside alguém que ama, pensa, sofre, existe.



   Voltando no momento errado fica fácil apontá-lo como sinônimo de momento incerto, tal a proximidade axiológica entre errado e incerto, ora aquilo que não é certo, por suposto, errado. Eis aqui a grande magia das secreções linguísticas: incerto guarda consigo outra significação, além da natural aproximação com o errado. Incerto carrega também a ideia de insegurança, instabilidade, aquilo que no exato momento não pode ser mensurável, visualizável, arriscado. Não seguro, confuso, titubeante. E como sei o valor, ou melhor, a importância, da boa e velha segurança jurídica. Deixei de comprar meu ingresso do Rock in Rio e agora estou vagando a procura de algum. Não sei se animaria pegar um avião sem a certeza do ingresso na mão. A boa e velha segurança jurídica. Como o coração palpita momentos antes de tentar as vias de fato com a guria que lhe cerra os olhos. O que ela vai responder? Ela também está sentindo o mesmo ou é só nóia da sua cabeça? Ah se pudesse ler mentes, com certeza seria o rapaz mais corajoso e ousado deste mundo, nadaria de braçadas no universo da precisão. É chegar e... Talvez perderia o prazer, por que não? Freud já dizia: em toda dor há um misto fenomenal de prazer, a pulsão de vida acompanha quase que tresloucadamente a pulsão de morte. Talvez meu coração não se largaria a pulsar. Talvez. Trocaria um talvez por outro: talvez ela esteja sentindo o mesmo por você, babaca. Talvez.



   Cheguemos, então, em um ponto crucial: notem como seria cômodo nadar de braçadas na leitura dos mais inescrupulosos pensamentos sombrios das gurias por quem me interessasse. Isso, eis a palavra-chave, muito mais do que certo, errado, momento ou qualquer outra. Eis a palavra: cômodo. Voltando no nerdístico raciocínio do estudante-de-bem das letras jurídicas: ora, por que Direito? Já no terceiro ano, não vou titubear, dou a cara a tapa: para nos proporcionar uma (falsa) ideia de comodismo, de segurança. É muito mais cômodo viver numa sociedade em que se sabe que ninguém (aham, tá bom, senta lá...) irá bater em seu carro sábado a noite saindo do Taurinos. É muito mais cômodo chegar em uma guria em que se percebe a certeza do sim e do “viveram felizes para sempre” - ao menos o final da noite será, com toda a certeza, muito mais agradável, hehe.
   Momento difícil é momento errado? Não. Momento difícil é momento não-cômodo. É um momento de incertezas, inseguranças, imprecisões. É quando nos deparamos em frente de desafios, questões que nos são dadas para nos darmos conta que nem sempre é tão fácil respondê-las. O “dois mais dois” já ficou para trás e agora nos vemos diante de questões muito mais complexas, afinal, existir é complexo. Momento difícil é quando não sabemos o que esperar do outro, é quando cada dia é um dia diferente, com respostas diferentes, comportamentos diferentes. Difícil é tentar as vias de fato com a guria que prendeu nosso olhar e não sabemos se o nosso olhar também prendeu aquele lindo par de olhos. Difícil é viajar para o Rio sem um ingresso na mão. Difícil é fazer uma prova do Falconi sem fazer a mínima ideia de como será cobrado o extenso conteúdo. Difícil é brigar com um amigo, engolir o orgulho a seco e pedi-lo desculpas.
   Difícil é decidir não nadar de braçadas no mar da segurança jurídica. Momento difícil é o momento de se esquecer tudo o que foi acima dito e se arriscar. Dificilmente, existir.




quinta-feira, 26 de maio de 2011

Valsa, A Dois


Ao grande amigo, Wendel Rosa Borges.
Let it Be, deixe Estar. A dor passa e se eterniza em nossas lembranças.

Um belo dia o Existir se apaixonou. Ele, que sempre andava a esmo e vivia dizendo que não seria capaz, jamais, de se apaixonar, logo ele, caiu de amores. Olho no olho. Que olhos. Fixou, então, em uma ideia: desvendar o segredo por trás daqueles olhos de ressaca. Indeciso e inseguro, como sempre, ele passou a se indagar insistentemente se ela também estaria sentindo algo tão forte assim. Pensou que não, provavelmente não. Só ele seria tão louco ao ponto de, em tão pouco tempo, por tão pouco fundamento, se entregar tão tresloucadamente. Decidiu esquecer ela. Mas, esquecer o quê? Ainda não havia nada, e ele já se martirizando. Outra decisão: enterrar, afogar o sentimento. Porém, decisão por indecisão, prevaleceu o espírito sempre atordoado, e sempre que a via não conseguia: o coração se punha a disparar, a mão ficar gelada, a respiração ofegante. Decidiu, até que enfim, tomar a última decisão: iria botar seu coração para fora, entregá-lo a sua amada, talvez, quem sabe então assim ela cuidasse dele.
Mas ela era tão linda. Como o Existir foi se apaixonar justamente por ela, a Dor? Seus amigos o aconselharam, sensatamente, a olhar a Carolina, a gostar da Andrea, a se entregar a Laura. Não, ele não quis. Para o Existir havia só ela: a Dor. E mesmo que ela não soubesse, sequer desconfiasse, para ele já bastava saber que com ela estava tudo bem. Olhava-a de longe, com olhos de comer fotografia, sempre esperando que ela virasse num momento absorto, e retribuísse o olhar insólito. Ela nunca olhava, ele não se abatia. Um dia olharia...
Um dia a Dor olhou. Olhou e permaneceu estática. Como ele era lindo. Simples, perfeito. Em um momento imaginou que os dois poderiam ser só um. Um só. Encontrara o que há tempos estava perdidamente procurando. Ficou sem saber o que fazer. Por anos procurando e o que fazer quando a razão de tanta procura se constrói tão insolitamente em nossa frente? Decidiu não fazer nada. Ora, não faria nada. Era obrigação dele, como macho-alfa, acabar com o fardo de esperar. Ele, ele deveria dizer. Sabia que estava tão perto, mas por que não responder ao seu chamado?
O Existir se pôs a imaginar. Imaginou mil situações possíveis e impossíveis. Algumas trágicas, outras dignas de um célebre final de Hollywood. A realidade, contudo, não era mirabolante. O Existir era simples. O número grandioso, nas vias de fato, se converteu em um sofrido exercício de superação. O Existir superou a indecisão, a fraqueza, a covardia, o medo. A Dor aceitou o convite. Seria uma valsa.
Apenas uma valsa. Não era uma vida inteira. Não era um contrato oneroso. Não era uma obrigação indelegável. Não era um compromisso inalterável. Não era uma entrega completa. O Existir queria apenas uma pequena entrega. Que ela se entregasse ao desejo, não muito complicado, não muito difícil de perceber, desejo de pagar pra ver. Tão resoluta e certa de si, ela pagou pra ver. Ele merecia. Havia coragem e ele chegou nela. Havia medo e, aos poucos, com alguns passos de valsa, este se desfez. O Existir conheceu o sorriso da Dor, leu o seu olhar e a desestabilizou. Ela se entregou completamente, assinou tratados, contratos, contraiu obrigações. Perdeu o chão. Ganhou o amor. Ganhou um companheiro. Perdeu a solidão. A dois.
Desde então, conta-se a lenda, a Dor nunca mais se desgrudou do Existir. Sábia, deixou o rapaz viver sua vida tranquilamente, sem muito apego. Não queria sufocar. Mas, estava sempre lá. Logo depois dos momentos de maior felicidade, estava lá a acompanhar o seu amado. Perto de seu aniversário, em seu inferno astral, vinha e trazia aconchego e refúgio. Trazia, dialeticamente, um grande sofrimento, uma vontade de não-Existir. Consigo vinha, contraditoriamente, uma vontade louca de gritar e a triste constatação de que o grito não seria ouvido por ninguém. Gritar e não ser ouvido. É o presente de quem verdadeiramente ama: explicar, pacientemente, que, muitas vezes, gritar não adianta. Não adianta, então pra quê chorar? Calma, calminha, ainda não é hora de se desesperar. Cabeça no colo, diz: “calma, você ainda tem muito o que aprender”. E é sempre assim. Todas as vezes que o Existir vive intensamente e, no turbilhão de atividades e falsas ideias, acaba por esquecer sua essência, esquecer quem verdadeiramente é, vem a Dor e aperta o “stop”. Lava as feridas da vida, cicatriza as marcas da estrada.
Talvez por tamanha timidez inicial, por ter sido tão difícil romper com a natural limitação subjetiva, e pelos momentos juntos vividos, compartilhados, olhados, os dois se integravam de forma jamais vista antes. Assim é. E todo mundo diz que ele completa ela e vice-versa, que nem feijão com arroz. Agora sim, a última decisão: decidiram juntos, ser um só. Foi então que a dor se fundiu ao existir, e dele nunca mais saiu. Faceira, sempre aparece, trazendo sofrimento, trazendo purificação, catarse, epifania. É o que os mais sábios sempre dizem: Existir, dói.

Heitor Moreira de Oliveira, 26 de maio de 2011.



domingo, 8 de maio de 2011

sábado, 19 de março de 2011

A Vigésima Análise

Para Heitor, seus vinte anos.

Quantos anos vive um homem?
Quanto tempo carrega a face,
as costas
a cruz pesada?

Agora são vinte cruzes,
crucifixos da vitória.
São vinte fluidos
que não se fixam
todos eles infixáveis:
astutos correm soltos
entre os dedos do futuro.

Há sol a pino,
não é tarde.
Vejo grandes edificações
e a paz de suas sombras
de seus frutos
de seus medos

Em luta resistimos
sem o heroísmo dos resistentes.
Resistimos, somente
à vital batalha.

Lutou-se, com fastio, pela manhã.
E veio a manhã
a tarde, a noite
os entardeceres crepusculares:
Todos - não tardarão.

Nesse ínterim,
enquanto vivos, perguntaremos.
Conservaremos na alma a manhã,
na alma a noite,
a alma noturna.

No dia seguinte os frutos
maduros
se oferecerão submissos.
E ante a lâmina
incerteza da vida
haverá, tão somente,
a própria vida.

Vinícius Sado Rodrigues,
18 de março, 2011.


domingo, 6 de março de 2011

Perfume



Ele se encantou por várias flores, mas, talvez por algum feitiço jogado por algum invejoso ou mal afeto, sempre que ia cheirar os perfumes destas, elas em pó se transformavam. Tinha um dom, ou um anti-dom: conseguia destruir todas as flores em que tocava, todas que conseguiu um dia possuir. Quando pensou que com a rosa seria diferente, lá estava sua mão queimando a pobre florzinha. Racionalizou para si mesmo que com a dália não foi culpa sua. “Foi culpa dela”, dizia, talvez para tentar fazer com que ele próprio acreditasse nessa inverdade. Encontrou a magnólia, quando pensou que fosse o fim de tudo, e jurou que faria de outra forma, que dessa vez daria certo. Sua grosseria, seu modo bronco, rústico e insensível, entretanto, logo decepou a flor. Foi então que percebeu que amava demais todas as flores e que poderia viver apenas admirando-as, subentendido na distância. Assim as manteria vivas. Conseguiria manter-se vivo. Decidiu: ele decidiu, desde então se afastaria de todas as flores com as quais pudesse ter contato. Esconderia qualquer charme ou qualidade que por ventura pudessem encontrar encobertos em sua carcaça grossa e mostraria a todas apenas o seu lado desprezível. Nunca mais tocaria seu nariz nas pétalas, mas sempre sentiria o perfume das flores levado pela força do vento a vivificar seu coração.



terça-feira, 1 de março de 2011

Ferida Aberta

Não é da noite para o dia
Que se cicatriza a ferida
Que instalou-se no peito
Em hora distraída

Há de arder silenciosa
Igual a solidão andante
Antes que se desvaneça
Como um vulto distante

Há de se consumir pouco a pouco
Como instante trote lento
Até que se extinga
Num vôo rasante do vento

Da noite para o dia
Não se cicatriza a ferida
Que fez no âmago moradia

Há de rastejar risonhamente
Igual ao ordinário réptil
À caça do que lhe sacie o ventre



quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Anna Foi Pro Mar



Anna foi pro mar. Mas, antes estava prestes a ir pro ar. Estava a um passo de entrar no avião, o marido já estava lá e percebeu quando a garota parou, fixa no pensamento, e assim se manteve por poucos minutos (que guardaram consigo a eternidade, um mundo). Parou e pensou. Quando uma lágrima caiu, virou e já não estava mais lá. O marido, absorto, foi pego pela surpresa, mas, ao mesmo tempo, feliz por vez a antiga Anna, toda paixão, toda momento, toda intensidade, de volta. Não restou mais nada que não fosse sair do avião e tentar correr para alcançá-la. Sabia que não conseguiria acompanhá-la, mas, tinha que tentar. Parou e viu a imagem da moça se apagar no horizonte.
 Seria a chance de sua vida. O sonho de qualquer princesinha. Depois do casamento (belo, sim), mudar com o recém-compartilhador-de-uma-vida para a França, fazer um Mestrado, algo fantástico. Ahh, e Paris, o cheiro de Paris, o brilho de Paris. O brilho estava nos olhos dela quando soube da aprovação da Universidade francesa. No momento não pensou duas vezes: ela iria. Ele iria também, por óbvio. Em verdade, o rapaz realmente a amava. Os dois se amavam. Mas, faltava algo. Toda aquela felicidade e um vazio no coração, faltava algo.
 De pé, olhando pro avião, sentindo o cheiro da borracha queimando no asfalto fervente, Anna percebeu o que estava faltando. Sussurrou consigo mesmo, na esperança vã de que o marido (o seu amor) conseguisse ouvir, sussurrou “me espera, já estou voltando”. Ele não ouviu. Ela correu atrás do que estava faltando. Ele correu atrás dela, mas não a alcançou.
 Apressada, o tempo estava acabando, o mundo estava acabando. O fim dos tempos, do mundo, o fim dos táxis. Não passava nenhum. Não pensou duas vezes e chegou até um casal que estava preste a sair com um carro alugado. Eram franceses. Perguntou onde estavam indo. Talvez o dedinho de Deus aqui, nesse ponto, tenha ajudado. Servia. Teria que andar um pouquinho, mas, vá lá, chegaria.
 O francês voou, quase que literalmente. Afinal, a parada que fizeram no meio do caminho acabou deixando-os um pouco atrasados. Estava lá: Setor Aeroporto. Falou, quase não-falando, tamanho a fome da pressa em comer as palavras. O porteiro a deixou entrar. Já a conhecia, e tinha a festa. A festa. O elevador. Num blues solitário sentiu um mundo passar com o subir do elevador. Um mundo se assentar. O mundo que momentos antes se repousava em sua pele, no salgado da parada que fizera. Um mundo que repousou e agora, no elevador, se fixou. A festa.
 Estavam todos ali. Era o aniversário de Heloisa. Todos ali: Wendel, Vinícius, Heitor, Maria Clara. Quando chegou estavam no momento do “parabéns”. Chegou e no canto ficou. Observando. Uma lágrima caiu. Quando a comemoração acabou, Anna foi ao centro e de lá partiu, em cada direção, a abraçar cada um. Abraçou todos. E, com um abraço bem forte em Heloisa, sussurrou: estou atrasada.
 Saiu da festa e voltou ao elevador. Por sorte, por destino, por ser, na porta do prédio havia um táxi. “Para o Aeroporto!”. O trânsito ajudou. O mundo ajudou. O tempo parou e disse “vai”. Em alguns minutos estava de volta ao lugar. Quando chegou, o marido estava ali, estava esperando-a. Parecia saber que ela voltaria. Sabia que voltaria pra ele. Não perguntou nada, simplesmente se beijaram. Um beijo profundo, verdadeiro, talvez o mais verdadeiro que já tenham dado. Depois, simplesmente disse: “o piloto passou mal e o vôo foi adiado, está pra sair agora. Vamos?”. Os dois seguiram para o hall de onde partiria o vôo. Pararam, juntos, e ficaram a olhar o avião. Anestesiados com a beleza de viver.
 Entraram no avião e, já acomodados na poltrona, só então o marido perguntou “o que foi fazer?”. Ela disse “fui ver o mar”, e o beijou. Quando estava no caso do casal francês, pediu para que parassem. À sua frente a Faculdade de Direito. Parou e ficou assim. Foi então que viu um mar passando, agitado em suas ondas. Não pensou duas vezes: entrou e se banhou nas águas. Deixou que o salgado, que poderia irritar seus olhos, se pregar à sua pele. Foi então que se deu conta de quem realmente era e continuaria, para sempre, sendo. Existindo. Vivendo. Anna foi pro mar.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Eu escrevo um texto que não me satisfaz

Preguiça. Inafastável. Preguiça de escrever sobre as coisas que vejo, que sinto, que me atrevo a dizer. Preguiça de escrever sobre tudo o que sempre escrevo. Sempre as mesmas coisas. Preguiça de escrever e de viver. Ou, talvez, preguiça de escrever e vontade de ter mais tempo para viver. É, quem sabe escrever tome nosso tempo de viver. Ou, quem sabe escrever é a forma mais divina de se alcançar a vida. Tenho de voltar a escrever...


segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Mosaico do Insólito

MAGNÓLIA

título original: (Magnolia)
lançamento: 1999 (EUA)
direção: Paul Thomas Anderson.
atores: Philip Seymor Hoffman, Julianne Moore, Tom Cruise.
duração: 188 min
gênero: Drama
O filme de Paul Thomas Anderson é, sem dúvida, uma das maiores preciosidades do cinema da década de 90. Nos apresenta um mosaico das relações humanas por meio do acompanhamento da história de vida de diversos personagens, que por diversas vezes se cruzam e rendem cenas emocionantes.

No melhor estilo "Short Cuts", "Amores Brutos" e "Crash", por cerca de três horas que, realmente, parecem passar despercebidas, tamanha coesão aplicada ao roteiro, o filme empolga do começo ao fim e, acima de tudo, nos emociona ao apresentar histórias de "gente comum" em situações insólitas, mas possíveis, que nos colocam no liame do limite. "O que fazer? Como aguentar tamanha dor?" talvez seja o questionamento mais latente nas histórias mostradas e que chega ao clímax na fantástica cena em que os personagens embalam o som de "Wise Up". Impossível não se emocionar.

Norteados pela experiência num programa de TV, os personagens destacados nos trazem fortes questionamentos. Como o personagem de Tom Cruise (perfeito, como [quase]sempre, em atuação injustamente preterida pela Academia), que cedo teve de lidar com o abandono do pai e a morte da mãe e agora, por ironia (será?), ganha a vida ensinando o machismo-alfa dominador para homens de plantão. Ou o personagem de William H. Macy, que funciona como um anúncio do que provavelmente ocorreria com o garotinho que compete atualmente no programa em foco. Juliannne Moore também está fantástica e consegue transmitir de forma intensa e instigante o peso da dor pelos atos passados e da corrosão que implica o amor inalcansável e que está se desfazendo.

Cenas antológicas, e que trazem consigo um puta questionamento (de tudo). Talvez isso seja o que mais fica ao espectador de Magnólia. Destaque para algumas: a cena em que Julianne dá um "esporro" no rapaz da farmácia; a cena em que o garotinho mija nas calças em pleno programa; a cena em que o personagem de William H. Macy diz "amar a todos", no bar; a cena final emblemática entre o casal Jim e Claudia; a já referida cena em que todos cantam "Wise Up" e, como não poderia deixar de ser, a fantástica cena-insólita da "tempestade de sapos", que consegue superar (e muito) a também insólita cena do terremoto de "Short Cuts".

Enfim, cenas que compõem esse que é, como já dito, um filme fantástico e que deve figurar, sem dúvido, no hall de qualquer admirador do bom cinema crítico.

Vale a pena "gastar" [ganhar] 3 horas!

sábado, 29 de janeiro de 2011

Os cinquenta anos da UFG: a importância dos estudantes neste importante processo

Em 2010 a Universidade Federal de Goiás completa seus cinqüenta anos e acreditamos que essa grandiosa história foi construída, gradativamente, ao longo desse tempo por forças que atuaram em conjunto em prol da consecução de um bem maior, o desenvolvimento de um centro de saber gratuito e de qualidade no coração do Brasil.
O primeiro Reitor da UFG, Dr. Colemar Natal e Silva, hoje dá nome ao Campus que abriga a Faculdade a qual foi diretor. Sua casa, a Faculdade de Direito, é, pois, mais antiga que a UFG: foi fundada em 1898 na Cidade de Goiás e se mostrou fundamental para a realização da UFG.
Mais antigo do que a nossa querida universidade é, também, o glorioso Centro Acadêmico XI de Maio, o CAXIM, fundado em 1933, também na antiga Vila Boa. O CAXIM também se mostrou, em meados do término da década de 50, decisivo nos “bastidores” da fundação da UFG. Assim sendo, devemos parabenizar a força estudantil que também tanto colaborou para a fundação da, hoje quase cinqüentenária, UFG. O movimento discente, bem como o corpo docente, teve importância fundamental para que no dia 14 de dezembro de 1960 a UFG fosse criada.
No final da década de 1950, o CAXIM participou do ato público na Praça Cívica de Goiânia, no qual o presidente Juscelino Kubistchek assina a lei de fundação da UFG e da Universidade Federal de Santa Maria no Rio Grande do Sul.
Importantes documentos históricos que relatam esse período se encontram, atualmente, expostos na Secretaria Administrativa do CAXIM, no piso superior da FD, Pça. Universitária. Nestes ricos acervos históricos, que apresenta, inclusive, importantes ofícios com trocas de correspondências entre o Presidente do CAXIM à época e o Dr. Colemar, podemos encontrar uma flâmula comemorativa do momento, com os dizeres “O CAXIM saúda a UFG”.
Acreditamos que um fato com tamanha importância, como o cinqüentenário de nossa querida universidade, não pode deixar de exaltar os esforços feitos por importantes movimentos, segmentos e personalidades que contribuíram de forma decisiva para a hoje já tão estruturada (e em constante movimento) Universidade Federal de Goiás. Assim sendo, devemos exaltar os estudantes e as lideranças estudantis do grande Centro Acadêmico XI de Maio. O apoio conferido foi, como já exposto, fundamental para hoje estarmos comemorando tal data.
Ao longo de mais de 70 anos, nosso Centro Acadêmico vem lutando de maneira incisiva e aguerrida, tornando-se referência por suas mobilizações e articulações, principalmente através dos jornais “O Acadêmico” e “O XI de Maio”, que se tornaram os principais instrumentos combativos na proliferação de idéias e opiniões. Participou de importantes momentos históricos, como a realização, em parceria com o Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP), da “Semana Nacional Mudancista”, que tinha por finalidade pressionar a opinião pública em prol da construção da nova capital do país no Planalto Central. Desse episódio restaram algumas fotos e documentos em nosso Arquivo Histórico, tendo rendido para ambos os C.A.s envolvidos uma homenagem por parte do Presidente JK, que imortalizou seus nomes numa placa fincada na atual capital federal, congratulando-os pela atuação em prol da criação de Brasília.
Os cinqüenta anos da UFG guardam consigo muito mais do que pode parecer: guardam a luta de várias pessoas que durante esse tempo se esforçaram bastante para que a UFG se tornasse a força que hoje, no mandato de Edward Madureira Brasil, se mostra ser. Os cinqüenta anos da UFG trás consigo a força do estudante goiano e a importância histórica e combativa do glorioso CAXIM.
No dizer de Benedito Ferreira Marques, ex-Vice-Reitor da UFG e ex-Diretor da FD, e grande colaborador do CAXIM, este não está sempre à liça!

Texto publicado no site: http://portais.ufg.br/projetos/50anos/


Tic-tac



sempre achei que tinha tempo.
hoje é o tempo quem me tem
se ele corre, ofego com ele
e ficamos os dois parados na chuva , olhando as pessoas.
nos debruçamos em sincronia nas janelas
vasculhando o dentro e o fora
com a mesma irreverente sofreguidão.
somos parceiros nos assaltos às horas,
adversários  em jogos de paintball
(o tempo insiste em usar diferentes cores,
o que me faz nunca saber
quem é na verdade o inimigo).
tudo que quero é que ele
nunca ande mais depressa do que posso.
que me acompanhe o ritmo de passos
elásticos agora (ainda),
talvez pequenos e hesitantes logo um dia.
o tempo é também meu melhor amante.
aquele que não desistirá de mim. 


Perséfone.




quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Como Uma Onda No Mar III


Ao mestre com carinho, para Heloísa Capel.

 [Ele estava na xerox do CA de História quando a viu e gritou:]
– Heloísaaa!
– Príncipe Heitor! Quanto tempo hein!...
– Então, nossa, faz muito tempo que não nos vemos. Mas, você continua a mesma, minha professorinha querida. Continua linda e adorável. Que estranho, hein. Só pode ser o destino. KKK’ Olha eu, que nem acredito nessas nóias de horóscopo, falando em destino, hein... Mas, fala sério, te mandei ontem um email, e hoje, depois de meses, te encontro de novo. Você recebeu o email?
- Recebi sim, e já respondi! Não viu a resposta? Mandei ontem de madrugada. Topo tudo, como dizia o Wendel, kkk.
- Que massa! Eai, o que anda fazendo de bom da vida? rsrs'
– Uai, transferi-me para o Campus da Cidade de Goiás, mas de vez em quando ainda ministro aulas especiais para o programa do Mestrado e do Doutorado aqui em Goiânia. Hoje estou aqui para uma conferência. E você, o que anda fazendo por aqui?
– Estou no intervalo da aula, um NL que estou fazendo aqui no Campus. Não sei o que me deu, acho que uma louca mesmo, só eu para, no quinto ano, vir aqui pro Samambaia.
- Qual disciplina está fazendo?
- Ah, professora. Ela se chama “Tópicos Especiais de Literatura Contemporânea II – Clarice Lispector”. É fantástica. Lá na Letras. Hoje é a última aula, despedida [você sabe, sempre fui péssimo com despedidas...]. A professora é muito legal, mas, lógico, não chega nem aos seus pés, hehehe.
- Que legal! Mas, isso é uma tentativa de fugir do Direito? Não me diga que está desanimado, hein...
- Não, professora. Nos últimos três anos estou aprendendo a gostar muito do Direito, a amar mesmo. Acho que não poderia ter feito uma escolha melhor, realmente é a minha praia. Sabe, comecei a vê-lo de uma forma crítica e ver que é possível conseguir coisas fantásticas através do Direito. E, também, o curso deu uma melhoradinha, aprendi a amar algumas matérias, como Direito Administrativo (minha preferida) e Direito Constitucional.
– Que bom! A Maria Clara também está começando a gostar, já até está estudando bem mais. Estou tão contente! Mas, me diga, o que mais está estudando ultimamente?
– Estou lendo um pouquinho de Marx (tem que ser, né? rsrs’), Freud, Habermas, Adorno, Luhmann e Boaventura de Sousa Santos. Um pouquinho de Machado, Caio Fernando Abreu, do Pessoa (ahh, o Pessoa!) e muuuita Clarice! Ah, te contar: meses atrás estava relendo os textos e slides de História Cultural da Arte. Nossa, lembrei do Beckett, do Burckhardt, do Warburg. Puts, saudade daquele tempo viu... Falando nisso encontrei o Felipe e a Ana Paula esses dias. Encontrei eles de relance lá na FD, estavam pegando uma matéria lá. Foi tão bom! Passamos a tarde inteira conversando! Eles formam só ano que vem, sabe como é, Medicina é um ano a mais. Estão naquela expectativa.
- Nossa, que bom! Saudades demais daqueles garotos! Saudade dos meninos também, do Wendel (um grande poeta, um grande pintor, um grande amigo...), do Vinícius (um gênio indomável, garoto incrivelmente engraçado e divertido, sensacional!), da Anna (ahh, minha Anninha, a garota mais sensível que já conheci, sabia?)... Como eles estão?
- Eles estão ótimos! Wendel forma comigo, em março do ano que vem, também! Anna e Vinícius estão no quarto ano, estão adorando o curso! A Anna já fala em ser professora de Direito Penal! Eles estarão na minha defesa de monografia, também! Lá será a oportunidade de nos reencontrarmos, hein!
- É mesmo, que fantástico! Que dia será mesmo? Aliás, achei o tema incrível, interessante e inédito. Um desafio, né?
- Nem me fale, Heloísa. Fiquei com medo. Ele ficou muito extenso! Puts. “A formação do sujeito jurídico contemporâneo: entre a igualdade econômica do mercado e a desigualdade material do sistema prisional – Interfaces entre Direito Crítico, Psicanálise e Mitologia”. Queria abarcar tanta coisa, fiquei com muito medo de virar uma salada e não dizer nada. Mas, lancei o trabalho num concurso de monografias e acabei ganhando! Agora eles querem publicá-la como livro. Mas penso que vou encurtar um pouquinho esse título, está enorme. Ahh, a defesa da monografia será na próxima quinta-feira, às 20 horas, aqui mesmo na FD.
- Nossa, Heitor, ganhou prêmio e vai virar escritor! Que lindo! Que orgulho estou sentindo de você! Eu lhe disse, se lembra? Você ainda iria brilhar muito! Passar por muitos desafios, pessoas que não vão gostar de você, mas, com essa determinação sua, que é única, você ia conseguir tudo! Estou tão contente! E pode saber: já marquei na minha agenda a sua defesa, hein! Assim que li o email ontem, já fui anotando...
- É, vai ser muito bom nos reunirmos de novo. Nossa, hoje vejo o quanto foi importante os momentos que juntos vivemos, que vão ficar sempre marcados, tenho certeza, em todos nós. E você ainda está me devendo uma saída para um barzinho, hein! Não pense que eu esqueci daquela vez que teve o teatro, o Company, hein. Depois da defesa, vamos todos para um barzinho!
– Ah, claro, hehe. Combinadíssimo! E me visitem depois, tenho uma casa lá no Bacalhau, perto do rio. É só me mandar um e-mail. Continuo on-line. rsrs'
– Tá certo, professora, vou articular com o pessoal para passarmos a virada do Ano Novo lá, pode ser? O que acha? Tudo regado a uma boa filosofia, filmes, músicas e... vinho!
- Nossa, que idéia ótima, Heitor! Lidera lá o pessoal, por mim tá fechadíssimo! Já vou organizando a casa, rsrs, pra não passar vergonha...
- Heloísa, tenho que ir agora. Minha aula já vai começar. Foi muuuito bom te encontrar hoje, hein! Foi maravilhoso! Vamos mantendo o contato! Não some das nossas vidas, hein?! Muitas saudades da senhora!!!
– Saudades também, meu querido! Parabéns pelo prêmio, pelo livro, pela defesa, e por ser essa pessoa doce e meiga!
- Até quinta, professorinha!
- Até lá, meu príncipe!
[E ele sumiu no vão do corredor. Heitor tirou nota máxima na defesa. Depois, finalmente, foram para o tão esperado barzinho. A virada de ano, na cidade de Goiás, foi incrível. Todos reunidos, para ver o pôr-do-sol, a “hora azul”. E, tomando um delicioso vinho até badalar a meia-noite. E eles continuaram se encontrando, marcando encontros em festivais de cinema, literatura, artes, se encontrando nas diferentes casas, assistindo filmes, indo ao cinema, e trocando e-mails por muitos e muitos anos...]


domingo, 23 de janeiro de 2011

2, 1000 e 10

Assim foi 2010:
espantado, corrido
o tempo passando dolorido
no peito de quem amou.
Pouco se amou em 2010 -
mas ninguém reclamou
do pão, da carne
da prestação do imóvel
impróprio para habitação
e aumentou a drummoniana fila do feijão
enquanto vinha nova informação
intumescendo 2010
ano que pachorrentamente
deglutia 2009
sua crise, sua gripe
sua morte da estrela
e a unidade numérica
pobre um
se sentia magra
exígua virgular
interrompendo a oratória penetrante
do olhar
que formavam os zeros inquietantes
na conta bancária
milionária
da high-perdulária em 2009.

2010 rimou com desilusão
poço sem fundo
gosto de derrota
na copa do mundo.
E seguindo o fluxo
mercantil
disseram avante, Brasil
e 2010 atravessou
com cheiro de casa nova
dos programas de habitação
moradia, meu irmão
temos teto
temos chão
e o Brasil é maravilhoso porque não tem terremoto.

Em 2010 saiu do ar
poluído, acrise ecológica
e saiu para dar lugar
à violência patológica
ao assassinato da mulher
do jogador
do clube de futebol
e dos novos ricos.
A publicidade
sem muito esforço
mostrou-nos novamente belo corpo -
o corpo ainda não foi encontrado.
A imprensa, mais em 2010
em seu poder refratário,
usando de imbatível retórica
meteu-se a judiciário
e não bastasse o criminal
palpitou na zona eleitoral
com seu ar sempre jurídico
grave
circunspecto comedido
com argumento de autoridade
(ou autoritário
sensacionalista panfletário).
 E 2010 já respirava cansado
quando soaram
as trombetas da cidadania
convocando o jogo democrático
e na feira da democracia
houve a surpresa da verdura
embora pareça sem cura
(ao menos para as donas de casa que fizeram o Normal)
esse amontoado de horrores
que são os fornecedores:
cultivam a mesma espécie
e disfarçam com facetas várias
o que foi plantado nas mesmas terras
latifundiárias -
mas não tem problema 
se faltou arroz no Natal
em Copacabana
houve fogos, foi sensacional
que beleza ficou o céu
acima do Palace Hotel
decretando: continuará em janeiro
sendo este o Rio verdadeiro.
E façamos jus ao carnaval
que marcará 2011,
seu ponto inicial
e apesar das unidades com fome
no fim do numeral
tenhamos esperanças
um pé atrás
e nas mãos desconfianças.
E para elas há motivos, não há?
Ora, minha gente,
vamos combinar
2010 foi deprimente
de uma tristeza crepuscular.
Vinícius Sado Rodrigues
 

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Ponto Final



Chegou à frente do computador. Abriu o chat. Para ninguém lhe impugnar crueldade ou insensibilidade, decidiu dar uma última chance para o amor: jurou pra si mesmo que caso ela puxasse naquele momento, qualquer assunto, ele iria esquecer toda a tensão e estaria disposto a começar tudo do zero, recomeçar a história. Qualquer assunto, a hiperinflação argentina, a queda do muro da Tanzânia, a troca de sexo de amigo em comum, algum episódio de Caverna do Dragão, enfim, qualquer coisa. Bastava um “oi”, um sinal de vida, e tudo estaria resolvido. Ela voltaria à sua vida, entraria na porta da frente, de gala. Não disse nada. Ficou calada, muda. Saiu pela porta dos fundos que, agora ele fazia questão de trancar. Ela ficou em silêncio, como fez nos últimos dois meses em que estavam sem se falar. A janelinha do chat subiu. Ela estava on. Quinze minutos, ele iria esperar quinze minutos. Trinta se passaram e nada. Decidiu: iria colocar um ponto final, em tudo. Mandou um email.
Ela abriu o chat. Naquele dia pensara em sua vida e tinha tomado uma decisão: iria esquecê-lo de uma vez por todas e se entregar à nova paixão. Entrou, então, no chat para falar com essa tal nova paixão, não tão nova assim. Fazia cerca de dois meses que não conversavam. Clicou na janela de bate-papo. Não deu nada. O programa estava com defeito. Talvez seja vírus. No dia seguinte viu que recebera um email dele, acabando com tudo. Terminando tudo que nem existia.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Ayer

O homem estático mira a Pietà

Ayer

O homem sonha com o poema que vai escrever

Ayer

O homem pensa que quer convidá-la para dançar

Ayer

O homem tem vontade de trabalhar

Ayer

O homem põe seus óculos e projeta

Ayer
O homem cultiva orquídeas em casa

Ayer

Fotografa o céu

Fumando se distrai, a vida lhe responde pronta e submissa

Ayer ayer ayer

O homem sorri, não pensa na morte

Mas isso foi ontem.

Anna Maria Nunes Machado